As Origens

Durante muito tempo se pensou que Tongobriga deveria ser uma fundação da época do Imperador Augusto (27 a.C. – 14 d.C.). Como tal, teria sido criada nos últimos anos antes do início da era cristã. Com efeito, são muito escassos e pouco visíveis os vestígios anteriores.
 
Estruturas da Idade do Bronze (fórum de Tongobriga)(APF)Porém, na sequência dos trabalhos ultimamente desenvolvidos, sabemos hoje que existem indícios de uma ocupação sedentária na base da encosta Sul do povoado desde, pelo menos, a Idade do Bronze, cerca do séc. XV a.C.. O que não significa que se possa afirmar uma continuidade de povoamento entre essa época e a formação do povoado fortificado que, na Idade do Ferro, mereceu o nome de Tongobriga.
 
Não obstante isso, avolumam-se os dados arqueológicos que apontam para uma fundação de um povoado castrejo muito anterior à época de Augusto.
 
Entre esses dados, destaca-se a presença de peças cuja cronologia deverá remontar ao séc. II ou, até mesmo, ao séc. III a.C.. Embora estas peças surjam normalmente fora do seu contexto original, ganham mais significado quando vistas em conjunto com outros dados cronológicos recentemente obtidos, nomeadamente de datações de Carbono 14.
 
É o caso da datação de uma lareira associada a uma construção de planta circular, situada na acrópole do povoado, que proporcionou uma data de 2110 +/- 70 BP (360 cal BC – 22 cal AD a 2σ). Mais recentemente, duas outras datações, idênticas e em contextos totalmente diferentes, vieram reforçar a importância da anterior: as terras em que foi aberta a canalização de drenagem de águas de uma domus forneceu uma data de 2083 +/- 26 BP (181 - 41 cal BC a 2σ); e as terras que compunham o miolo da muralha – as quais nos fornecem um terminus post quem para a construção de uma primeira linha defensiva, que não será exatamente aquela que hoje observamos – forneceram sementes carbonizadas, uma delas datada de 2102 +/- 27 BP (194 - 51 cal BC a 2σ).
 
Arrecada de ouro (séc. III / II a.C.) (DC)Em conjunto, estes dados reforçam a possibilidade de o povoado fortificado que mereceu o nome de Tongobriga ser uma fundação ocorrida na sequência das campanhas de Decimus Iunius Brutus, de cognome “o Galaico”, em 138 – 136 a.C.. Se assim for, o seu aparecimento afasta-se do contexto histórico a que é atribuída a fundação de outros grandes povoados castrejos da região, como o Monte Mozinho (Penafiel), que continua a não fornecer indícios de ocupação anterior à era cristã; mas ganha outro enquadramento num processo de fortificação dos povoados castrejos do noroeste peninsular que está bem documentado em vários outros locais congéneres da área dos Callaeci.
 
Se efetivamente for possível recuar a formação de Tongobriga até ao séc. II a.C. – embora, em termos de arquitetura, pouco se conheça dessa época por causa da intensidade das transformações posteriores – torna-se muito mais clara a imprescindível maturação do núcleo populacional primitivo de Tongobriga, necessária para a compreensão do fenómeno de desenvolvimento urbano que lhe é reconhecido a partir dos finais do século I d.C.
 
Este possível recuo da cronologia das fases iniciais de Tongobriga ajuda-nos a compreender melhor a organização urbana posterior, a qual parece só ser explicável se já há muito tempo se tivesse vindo a desenvolver neste local um importante povoado.
 

 O Nome

Antes de se chamar Freixo, como sede de uma paróquia medieval com a invocação de Santa Maria, este lugar chamava-se Tongobriga. Prova-o um pequeno altar em granito dedicado ao Genio Tongobricense, isto é, aos deuses protetores de Tongobriga, encontrado no século XIX nas proximidades da igreja paroquial. O nome manteve-se em uso pelo menos até aos finais do século VI, já que, nessa época, designava uma “paróquia” sueva com o nome de Tongobria. Porém, essa é a última referência conhecida a esse nome. Não se regista qualquer vestígio dele na toponímia atual.
 
São bem conhecidos os topónimos com o sufixo -briga – que significa “colina fortificada” – os quais designam muitos povoados proto-históricos da Península Ibérica, com particular incidência na sua faixa mais ocidental. Este sufixo deriva de uma raiz (-bhurg) partilhada por línguas célticas e por outros grupos linguísticos indo-europeus, a mesma raiz que está na origem dos sufixos germânicos -berg e -burg, bem conhecidos na atualidade por serem a base dos termos “burguês” – que designava originalmente alguém que vive na cidade – e “burgo” – “aglomerado populacional fortificado”, mais tarde generalizado a qualquer núcleo de povoamento concentrado.
 
Excerto da Divisio Theodemiri (séc. VI d.C.) – Referência a “Tongobria” (ADB) 12 O no me O no me
É reconhecido pelos especialistas que o aparecimento de topónimos com o sufixo –briga deve ser atribuído, em princípio, à ação e/ou presença de grupos que falavam línguas célticas. Embora estes nomes possam ter origem em povos que falavam essas línguas, eles também foram apropriados por outros, nomeadamente pelos que falavam latim, pelo que a determinação da sua origem, pré-romana ou romana, deve ter em conta, em particular, o prefixo que o acompanha.
 
O sufixo –briga pode estar acompanhado de vários tipos de prefixos: nomes pessoais, etnónimos e ainda outros topónimos ou adjetivos que qualificam alguma característica da própria colina. Casos há em que esse prefixo revela, sem margem para dúvida, que foi atribuído já em época romana por quem quis homenagear algum personagem (por exemplo, o próprio Imperador, como nos casos de Caesarobriga, Juliobriga ou Augustobriga).
 
No caso de Tongobriga, ao sufixo foi associado, de forma clara, um nome indígena, bem documentado na Proto-História do Noroeste peninsular: Tongo, que também aparece sob as formas de Toncius / Tongius, Tanginus / Tancinus, Tongeta / Tongetanus.
 
Ara ao Genio Tongobricense (Foto: JMA; Desenho: FMS)O nome expressa a vontade de homenagear um personagem de origem autóctone, atribuindo-lhe o nome do próprio povoado. Esse personagem, Tongo, pode ter sido uma pessoa real, 
Ara ao Genio Tongobricense (Foto: JMA; Desenho: FMS)
eventualmente o próprio líder da comunidade ou aquele que patrocinou a aglomeração de habitantes neste local. Mas poderá também ser uma entidade divina ou personagem mítica, uma figura ancestral de alguém que se reconhece como fundador da comunidade.
 
De qualquer das formas, o seu nome sugere que a iniciativa da formação de um povoado castrejo com o nome de Tongobriga – ou, pelo menos, a iniciativa de o designar desta forma – não partiu da autoridade romana, mas das próprias populações locais. O nome seria, é verdade, sancionado e mantido pela nova administração romana do território e manter-se-ia, como vimos, para além da queda do Império.
 
Registe-se também que grande parte da encosta nascente da colina onde se situou Tongobriga ainda hoje se chama Ambrães, um outro nome que sugere igualmente a colonização do local por populações de origem céltica ou, pelo menos, falante de línguas célticas.
 

A Estrutura do Povoado Castrejo

Desde as primeiras escavações arqueológicas realizadas em Tongobriga, foram reconhecidas várias construções que habitualmente se encontram nos povoados a que chamamos “castros”, característicos da época em que se deu a integração desta região no Império Romano.
 
Essas construções pétreas de planta circular surgiam aparentemente isoladas e dispersas, desmanteladas até ao alicerce ou reduzidas a meros negativos talhados na rocha granítica. A destruição a que tinham sido sujeitas, em época romana, pela intensa urbanização do espaço disponível, impedia que se tivesse melhor perceção da sua organização e distribuição espacial.
 
Uma outra construção tipicamente castreja – um balneário do género dos que são conhecidos como “pedra formosa” – foi descoberta junto às termas romanas. Também este balneário havia sido soterrado, depois de inutilizado pela construção das termas. Nada mais se conhecia sobre este povoado castrejo. E nem mesmo os materiais usados pelos seus habitantes pareciam ter resistido ao tempo.
 
Porém, nos últimos anos, este desconhecimento tem sido atenuado por várias descobertas que já nos permitem, atualmente, ter uma imagem mais nítida de como seria esse castro cuja memória quase foi apagada pela civilização romana.
 
Tal como acontece com todos os povoados do mesmo género, a área habitada do castro de Tongobriga estava cercada por uma muralha, cuja função, além de defensiva, poderia ser também de delimitação e vedação. Essa muralha estava rodeada por um fosso exterior – ainda hoje percetível nas encostas norte e sul – e abrangia uma área superior a 13 hectares, o que a coloca no grupo dos castros de maiores dimensões.
 
Vista “aérea” do povoado castrejo de Tongobriga (D) 
 
No interior desse perímetro amuralhado, mas nunca fora dele, encontram-se construções graníticas de planta circular, com e sem vestíbulo, e outras construções menores de formas diversas que tinham pátios em seu redor, por vezes lajeados, e estavam cercadas por muros, correspondendo a núcleos familiares dispostos ao longo dos caminhos que estruturavam o povoado. A julgar pelos cálculos já realizados para outros povoados de dimensões semelhantes, Tongobriga poderia albergar mais de centena e meia destas unidades domésticas, acomodando mais de dois mil habitantes no seu interior.
 
Se o castro de Tongobriga teve um outro recinto amuralhado em torno da sua acrópole, não o sabemos. Mas parece ter tido uma outra muralha, exterior à que já foi referida, delimitando um amplo espaço situado na base da sua encosta sul, espaço esse que não possuía habitações, mas que nem por isso deixava de ter um papel muito importante para a comunidade que aí habitava.
 
É nesse espaço, extramuros, que se situa, como é habitual, o balneário da “pedra formosa” – que depende da existência de água para funcionar. Essa ampla área cercada dispunha de água em abundância e é habitualmente interpretada como espaço disponível para apascentar e recolher o gado, para além de outras atividades importantes para a subsistência da comunidade. Seria esta mesma superfície que viria a merecer a construção de um monumental recinto de planta retangular, cuja localização não podia espelhar melhor a vital função económica que viria a desempenhar para os tongobricenses.
 
Fora das muralhas e à margem do caminho, dois outros elementos estruturais que se conhecem ainda mal: a necrópole, cujos elementos conhecidos mais antigos são já reflexo do modo romano de encarar os mortos; e um possível santuário rupestre, do qual resta apenas a memória de um antigo símbolo solar, do género dos tríscelos que tão bem caracterizam a fase final da cultura castreja, cuja existência a memória popular eternizou com o nome de “São Solimão”.
 
Modelo virtual da estrutura urbana do povoado castrejo (D)
 

Um "Estranho" Modo de Vida

Tríscelo, em granito (séc. I) (DC)
Há mais de 2000 anos, em Tongobriga, uma mulher, pertencente ao povo a que os romanos haveriam de chamar Callaeci Bracari, perdeu uma pequena, mas belíssima joia de ouro, que jamais encontrou, impedindo-a de usar a outra arrecada, que com essa fazia par. Teria sido fabricada ainda antes de terminar o século III a.C.. E não seria, certamente, o único adereço usado pelas habitantes do povoado. Porém, nem tudo, como o ouro, resiste à acidez dos solos.
 
Com exceção do traje que surge representado nas estátuas de guerreiros que se erguiam à entrada dos principais povoados dessa época, esses povos não nos deixaram outras representações ou descrições da forma como se vestiam, quer no dia-a-dia, quer em ocasiões especiais como aquela para a qual a desafortunada tongobricense se preparava. Teríamos de esperar pelo século I da era cristã para que o olhar dos romanos – nada imparcial, mas muito atento – nos legasse descrições mais coloridas e animadas da forma como se vestiam, viviam, conviviam e sobreviviam os que por aqui habitavam quando eles aqui chegaram.
 
Reconstituição de núcleo familiar castrejo em Tongobriga (D)
 
Peça tubular decorada, em bronze (AM / MDDS)A maior parte usa couraças de linho”, “em combate, cingem a frente com uma banda”, “usam um pequeno escudo” e “o cabelo comprido à maneira das mulheres”, diz Estrabão, o autor romano que mais pormenores nos deixou sobre esses povos. Sobre as mulheres, diz ele que “usam saias e vestidos com adornos florais”. O que mais suscitou a sua atenção não foi, porém, o vestuário masculino ou os adornos femininos, mas os “estranhos” hábitos alimentares desses povos, a forma como conviviam, e, sobretudo, o seu caráter guerreiro e as suas crenças:
 
Alimentam-se uma só vez ao dia” e “comem sobretudo carne de bode”. “Durante dois terços do ano alimentam-se de lande de carvalho. Secam-nas, trituram-nas, moem-nas e fazem com elas pão, que pode guardar-se durante muito tempo. Bebem também cerveja. Vinho, têm falta dele, e o pouco que logram, rapidamente o consomem em banquetes familiares”, diz ainda o mesmo autor sobre a alimentação deles.
 
Dormem no chão”, “untam-se duas vezes ao dia” e “tomam banhos de vapor que fazem com pedras ao rubro”, diz-se sobre as suas rotinas. “Tomam as suas refeições sentados em bancos construídos ao redor das paredes, onde os convivas tomam os primeiros lugares segundo a idade e a categoria social”. “A comida circula de mão em mão” e, “enquanto bebem, bailam e fazem coros ao som da flauta e da trombeta”, dão “saltos no ar” e caem “de joelhos”, observa-se sobre a forma como convivem em grupo. “Fazem sacrifícios, observam as entranhas sem as arrancarem, examinam também as veias do peito e adivinham por simples apalpação. Fazem também augúrios observando as entranhas dos prisioneiros”, “cortam-lhes a mão direita”, “oferecem-na aos deuses” e “sacrificam bodes, prisioneiros e cavalos”. Hábitos que, na opinião dos romanos, faziam dos Calaicos um povo “rude” e “selvagem”.
 
Potinho de cerâmica decorada castreja (séc. I) (DC)Estes povos estariam prestes a perder essas caraterísticas. Aliás, só as teriam porque, “sendo longos os caminhos por terra e por mar, para chegar até eles”, “não tinham relações com os outros”, tendo perdido “toda a sociabilidade e humanidade”. Passariam a “sofrer menos deste mal, em virtude da paz e da presença dos romanos”, dizem, senhores de si, estes últimos.
 
Para uns, o romano passaria a ser uma fonte de admiração: ser “um deles” seria uma legítima aspiração. Para outros, isso constituiria uma inaceitável negação da sua identidade. Para outros ainda, apenas uma estranha forma de vida. Para todos, a transformação seria em breve uma realidade. E todas as resistências e inércias seriam vencidas.
 

O Balneário da "Pedra Formosa"

O mais emblemático edifício de Tongobriga pré-romana que chegou até aos nossos dias é um balneário que, não sendo monumento único no contexto da última fase da chamada “cultura castreja do noroeste peninsular”, se distingue de todos os outros por ser totalmente escavado na rocha granítica. Insere-se numa área em que são abundantes os negativos de outras construções, provavelmente feitas com materiais perecíveis, sinal de que o balneário estaria integrado num conjunto mais vasto de estruturas, hoje desconhecidas.
 
Provavelmente construído em torno dos inícios da era cristã, ter-se-á mantido em uso até ao último quartel do século I d.C., mais concretamente até à edificação das termas romanas.
 
Balneário castrejo. Panorâmica (ES)Trata-se de um edifício destinado a banhos e integra-se num bem conhecido conjunto de estruturas similares que corresponde, sem dúvida, aos locais onde, segundo Estrabão (autor romano do século I d.C.), se tomavam “banhos de vapor produzido por pedras aquecidas”.
 
É possível que fossem de acesso restrito, limitado aos que tivessem lugar na celebração de rituais de iniciação, marcados pela função purificadora da água, de que será sinal a serpente esculpida na rocha do pavimento da sala de entrada do balneário de Tongobriga, em posição clara de saída da câmara de sauna, com a cabeça voltada para o exterior, como que representando a expulsão do maligno por via da exposição ao vapor quente.
 
Em Tongobriga, o balneário usufruía da água que escorria pela encosta em condutas também rasgadas na rocha granítica. O edifício propriamente dito era constituído por quatro espaços distintos.
 
Proposta de reconstituição do balneário castrejo de Tongobriga (D)
 
Um primeiro espaço aberto, um pequeno pátio ou átrio lajeado, no qual sobressaía a presença de pequenos tanques de água fria, através do qual se acedia a uma primeira câmara subterrânea;
 
Câmara de sauna e abertura da fornalha do balneário (D)
Essa primeira sala, escavada na rocha, dispunha de bancos, também eles talhados no granito, e constituía uma espécie de antecâmara de espera para o acesso à sauna. Esta sua função, como sala onde se aguarda a vez de forma mais ou menos prolongada, condiz com a necessidade dos bancos. A separação entre esta sala e a seguinte é a que costuma receber as tão famosas “pedras formosas” que deram o nome a este tipo de monumentos. Em Tongobriga, a decoração da “pedra formosa”, muito semelhante à da Citânia de Sanfins (Paços de Ferreira), não é das mais exuberantes, tendo um singelo encordoado a toda a volta da abertura;
 
Pela exígua abertura da “pedra formosa” – acedia-se a uma segunda câmara interior, retangular, que era o espaço de sauna propriamente dita, na qual teriam lugar os rituais já referidos. No lado oposto, uma abertura para a última câmara, permitia a passagem do vapor; Por fim, um terceiro espaço, de planta circular, interpretado como “fornalha” ou câmara de produção de calor. Nela seriam depositadas pedras previamente sobreaquecidas, que serviam para produzir vapor quando sobre elas fosse vertida água fria.
 
É possível que, no Baixo Império, o balneário tenha servido para outras funções. Assim o dá a entender a abertura de uma nova passagem acima da original e a inversão da “pedra formosa”.
 
Acresce uma outra alteração, simbólica, que aponta para a probabilidade de o interior do balneário ter estado descoberto e visível até bem mais tarde: a cristianização da serpente, através da gravação de uma cruz que lhe afetou a zona da cabeça, num sinal claro de que a sua presença foi interpretada, em ambiente cristão, como prova da celebração de rituais “pagãos” cuja memória era necessário anular.
 
Antecâmara do balneário castrejo. “Pedra formosa” e “serpente”(D)
 

A Integração da Callaecia no Império Romano

Situemo-nos em Tongobriga e recuemos até ao último quarto de século antes do nascimento de Jesus Cristo.
 
Há mais de um século que as populações autóctones haviam tido os primeiros contactos com os romanos, desde que as campanhas militares comandadas por Decimus Iunius Brutus (138 – 136 a.C.) passaram o Douro e chegaram ao Lima, o “rio do esquecimento”. Desde então que se faziam sentir os efeitos da integração desta região nos circuitos comerciais do Império.
 
Moeda de Augusto com caetra (APF)A região litoral a Norte do Douro terá sido definitivamente submetida ao domínio político romano com as campanhas de César, em 61 – 60 a.C. A partir de então, a Callaecia, conformada à pax romana, tornou-se particularmente importante para a estratégia militar que permitiria, décadas mais tarde, a conclusão do processo militar de integração da Hispania no Império Romano.
 
As sublevações dos Ástures e Cântabros, no extremo Norte da Hispania, levaram o recém-entronizado Imperador Augusto (27 a.C. – 14 d.C.) a organizar as operações militares conhecidas por Bellum Cantabricum, que culminaram em 19 a.C. com a definitiva conquista e pacificação da Península Ibérica.
 
Particularmente importantes para a região em que Tongobriga se insere, deverão ter sido as campanhas de 26 / 25 a.C., nas quais participou o próprio Augusto, o Princeps.
 
A estratégia militar utilizada pelas legiões romanas ficou conhecida como “dupla tenaz combinada”: por um lado, um ataque terrestre desde o acampamento-base em três colunas, uma central e duas pelos flancos; por outro, uma intervenção marítima desde o Cantábrico para cortar a retirada aos Cântabros e aprovisionar o seu próprio exército.
 
A coluna que progrediu pelo flanco ocidental para atacar o território dos Ástures em 25 a.C. terá atravessado o território da antiga Callaecia (actual Norte de Portugal e Galiza). Embora não haja notícias concretas, esta coluna terá passado na região de Tongobriga, rumo à zona de Braga, onde são cada vez mais abundantes os testemunhos de presença militar romana e onde é possível que se tenha instalado uma base de aprovisionamento.
 
 
Fíbula tipo “Alesia” (APF)
Será este facto que explica o achado, em Tongobriga e noutros locais do Norte de Portugal, de adereços identificados com a presença de legionários romanos, como as fíbulas tipo Alesia, e em especial um tipo de moeda romana que foi uma cunhagem especial, ordenada pelo Governador da Hispania Ulterior, Publius Carisius, e relacionada com estas campanhas militares. Trata-se de um tipo de moneta militaris, com a figura de uma caetra (escudo defensivo, usado pelos guerreiros calaicos) no reverso.
 
Embora já antes de Augusto e das suas vitoriosas campanhas se reconheça a presença, ainda escassa, de objetos que provam a integração desta região nos circuitos comerciais do Império; e apesar de muitos reconhecerem na formação dos grandes povoados castrejos e na sua organização “proto-urbana” – como em Tongobriga – mais do que uma reação autóctone ao invasor, o efeito da ação política deste último; a verdade é que é sobretudo a partir de Augusto que nesta região verdadeiramente se processa a profunda transformação a que chamamos “romanização”. Mas esse seria um longo processo que se iria prolongar pelas gerações seguintes. Fíbula tipo “Alesia” (APF)
 
 
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Lima, António Manuel; Menchón i Bes, Joán – Tongobriga. O Espírito do Lugar. Guia Arqueológico Visual, Porto, DRCN / CMMC, 2018.
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