A paróquia medieval

Nesta região, a história da maior parte das paróquias e freguesias escreve-se com as mesmas palavras com que se compõe a história da formação e desenvolvimento das villae do período a que convencionamos chamar da “Reconquista Cristã”.
 
A villa tem um significado diferente da vila moderna. Designava inicialmente uma grande exploração rural na qual se incluíam a residência do seu proprietário e respetiva família (uilla urbana), as habitações dos trabalhadores rurais e demais construções associadas à exploração da propriedade (uilla rustica) e o conjunto de terras que compunham a propriedade (fundus). Embora nem sempre isso aconteça, algumas delas já dispunham de uma igreja própria nos inícios do século X.
 
Muitas das igrejas destas villae estão na origem dos posteriores templos paroquiais. E os seus territórios, não raramente coincidentes com um determinado vale – ou seja, todo o espaço cujos habitantes partilham as mesmas águas – estão na origem da configuração de muitas das atuais freguesias. Estes elementos comuns – a mesma igreja e as mesmas terras em redor da mesma linha de água, a par da submissão a um mesmo proprietário ou senhor – estão na base da criação dos laços de solidariedade e sentimento de pertença a uma mesma comunidade de vizinhos / fregueses que distingue cada paróquia / freguesia de todas as que a rodeiam.
 
A paróquia e freguesia de Santa Maria do Freixo é, porém, um caso singular. Daquelas exceções que confirmam a regra. As villae referidas na mais antiga documentação medieval, tais como Magães, Esmoriz, Fontes ou Covas, esta última já referida em 1068 – desde sempre os mais populosos lugares da freguesia, quase todos eles com origem em pequenas explorações agrárias de época romana, cada um em seu pequeno vale, deram origem a meros lugares que aparentemente nunca chegaram a dispor de igreja própria, e foram depois integrados na freguesia do Freixo. Uma freguesia cuja igreja se situa num lugar que, durante largos períodos da sua história, pouco mais teve do que a igreja, já que a sua situação topográfica, em lugar elevado, a pobreza dos seus solos e a ausência de água, nunca permitiram que aí se instalasse uma comunidade agrícola muito numerosa.
 
Sepultura escavada na rocha. Adro da igreja do Freixo (AML)O facto de o nome de Tongobriga – ainda em uso nos finais do século VI – ter sido votado ao esquecimento e ignorado no momento de designar a paróquia cristã, sugere ter havido uma descontinuidade entre uma e outra. Já a opção pela acrópole de Tongobriga - o centro do antigo perímetro amuralhado – para aí se instalar o templo paroquial, sugere, pelo menos, que se manteve a tradição e memória da importância e significado desse espaço.
 
As sepulturas escavadas na rocha, dispersas e isoladas, que desde há muito se conhecem no Freixo, sem qualquer conexão com a igreja paroquial, e que podem ser datadas de um momento anterior à constituição da paróquia medieval, sugerem que durante um período relativamente longo – entre os séculos VII e IX – a igreja, se existia, não era, ainda, o local eleito pelos habitantes locais para aí sepultarem os seus mortos. Habitantes esses que, certamente muito escassos, não deveriam sequer estar concentrados num núcleo a que se pudesse dar o nome de aldeia.
 
A implantação da igreja atual – que recuperou muros romanos, como o que ainda hoje marca o arco triunfal e a transição da nave para a capela-mor – e a configuração inicial do adro – também ele desenhado com base nos muros romanos que existiam no local – sugerem uma fundação muito antiga, dos primórdios da “Reconquista”, possivelmente de finais do século IX ou inícios da centúria seguinte. E as próprias dimensões desse primitivo adro – que tinha doze passos contados a partir da fachada – fazem lembrar, precisamente, as fundações relacionadas com as presúrias que se seguiram à integração desta região nos domínios da monarquia asturiana.
 

Entre conventos: de Tuias ao Porto

Mais do dobro do que terá durado a efémera tentativa de promover um modo de vida urbano (séc. I – IV) num espaço que não oferecia as melhores condições para tal, durou a ligação destas terras a dois conventos femininos: Salvador de Tuias (c. 1140 – 1535) e São Bento de Avé-Maria do Porto (1535 – 1892).
 
O mosteiro de Tuias recebeu estas terras das mãos de D. Afonso Henriques, quando este ainda não se intitulava rei, mas apenas infante. Com efeito, nas atas das Inquirições de D. Afonso III, redigidas em 1258, os capelães Soeiro Peres, da igreja do Freixo, e Paio Anes, da igreja de Tuias, bem como as restantes testemunhas, referem-se à carta de couto do Mosteiro de São Salvador de Tuias – que incluía a igreja de Santa Maria do Freixo – a qual teria sido atribuída pelo infante D. Afonso [Henriques] a D. Egas Moniz “o Aio” e a sua esposa, D. Teresa Afonso. Essa carta seria, portanto, anterior a 1140.
 
Embora as testemunhas citadas nas Inquirições tenham assumido que jamais tinham visto tal carta – e que apenas tinham conhecimento da mesma por terem ouvido falar dela – a sua existência é-nos confirmada pela descrição dos limites do couto do Mosteiro de Vila Boa do Bispo, concedido pelo mesmo D. Afonso Henriques, já com o título de rei, a 12 de fevereiro de 1141. Nesta carta, refere-se claramente que o couto de Vila Boa confrontava diretamente com o de Tuias.
 
O Freixo manter-se-ia ligado a Tuias até à extinção deste convento, decidida por D. Manuel I em 1518, mas só concretizada em 1535. As freiras de Tuias foram transferidas para o Convento de São Bento de Avé-Maria do Porto, e com elas foram também as propriedades, incluindo toda a paróquia de Santa Maria do Freixo. Uma ligação que se manteve até que também o convento de Avé-Maria foi extinto, com a morte da última religiosa ocorrida em 18 de maio de 1892.
 
Protegidas pelos reis e não raras vezes transformadas em meras extensões dos domínios senhoriais, as instituições monásticas foram dotadas de extensas propriedades que nunca tiveram possibilidade de explorar diretamente, pelo que a opção quase sempre foi o emprazamento. Tuias e Avé-Maria não fugiram à regra. Mas o Freixo sim.
 
Excerto das Inquirições de D. Afonso III (1258) relativas ao couto de Tuias (ANTT)
 
Com fracas terras, escassa água e gente muito pouca, a colina que na Idade Média se rebatizou com novo nome não tinha muito para oferecer se nela se procurassem bons campos agrícolas para arrendar. Não admira, pois, que os mais antigos prazos conventuais ignorem as terras mais altas do Freixo. Elas só começariam a produzir quando, séculos mais tarde, a iniciativa privada foi capaz de investir no arroteamento de terras incultas e improdutivas e na criação de socalcos naquelas pedregosas encostas. Porém, o Freixo, se na lavra era pobre, tinha outras coisas para oferecer, que as freiras, de Tuias primeiro, de Avé-Maria depois, bem souberam aproveitar. Tinha a igreja, que mesmo situada em local quase ermo, sempre continuou a atrair os fiéis. E tinha a feira, que não dependia de grande população residente para render. E render bem.
 
A igreja e a feira seriam, pois, muito mais do que os campos ou as casas, os dois mais preciosos bens de Santa Maria do Freixo. Não admira assim que, nos escassos documentos que chegaram até nós sobre o Freixo pré-moderno, não se trate de outro assunto que não das duas grandes preocupações das legítimas proprietárias das suas terras: dos principais momentos e sacramentos da vida dos seus habitantes, do nascimento à morte sempre ligados à igreja; e dos rendimentos da Feira da Quaresma, que durante muito tempo parecem ter constituído um verdadeiro seguro de vida para um lugar que de outra forma há muito estaria abandonado.
 

A velha “estrada dos almocreves”

Fiel à intemporal vocação que sempre marcou a vida do lugar, o Freixo, tal como a sua antecessora Tongobriga, sobreviveu porque continuou a ser capaz de atrair gente de fora e de longe. As características adversas da sua topografia e as limitações dos seus recursos naturais terão sido largamente compensadas pela sua localização geográfica.
 
Um sítio cuja sobrevida é garantida, antes de mais, por uma feira de caráter regional e por uma população flutuante numerosa que quase consegue fazer esquecer o vazio que toma conta do lugar na ausência dela, é um sítio que só sobrevive se bem servido de bons caminhos que lhe quebrem o isolamento e o salvem do ermamento. Caminhos que fossem capazes de trazer pessoas vindas de longe. Muito longe. O lugar exigia-os. E a feira que o sustinha dependia deles.
 
“Estrada dos almocreves” em mapa de 1798, por Custódio José Gomes de VillasboasÉ lugar corrente destacar a importância que para esta região terá tido um velho itinerário romano ligando Bracara Augusta (hoje Braga) e Emerita Augusta (hoje Mérida). Seria ele a razão de ser do desenvolvimento urbano que Tongobriga então conheceu.
 
É também lugar comum afirmar que entre o fim do Império Romano e o advento de uma administração central forte do Estado português – algo que não existe antes do séc. XIII –ninguém tinha capacidade para rasgar novos grandes itinerários. Por isso se diz, com propriedade, que a rede viária romana estava ainda em uso nos tempos da primeira dinastia.
 
Este caso, porém, parece ser uma exceção. A região continua a ser, na Idade Média, atravessada por um importante itinerário: a principal ligação do Entre-Douro-e-Minho a Trás-Os-Montes e às Beiras. Mas o seu percurso não condiz com o da sua antecessora de tempos imperiais.
 
Uma via que alguns teimam em conhecer como a “dos Almocreves” – o que realça, desde logo, a sua importância como rota comercial – ligava o Norte, interior e litoral, ao Douro, alargando os horizontes desta região ao centro de Portugal e ao vizinho reino de Castela. Unia o Tâmega, em Canaveses, ao Douro, em Barqueiros. Pouco depois da ponte de Canaveses, permitia o acesso ao Freixo e à sua feira e seguia o seu rumo por Tabuado, Venda da Giesta, Fonte do Mel, Charrasqueira, Padrões, Teixeira e Mesão Frio, em direção a Lamego.
 
A importância desta via era tal que mereceu, nos primórdios da nacionalidade portuguesa, um investimento sem par: além da própria ponte de Canaveses e da sua albergaria, agraciadas com generosos donativos por Dona Mafalda, esposa do nosso primeiro rei, este último ousou tentar dotá-la de algo que só no século XIX se logrou concretizar: a construção de uma ponte sobre o Douro, obra ainda iniciada mas jamais concluída.
 
Será a esta via que se referem os testemunhos árabes de Al-Istrajri (séc. X) e Edrisis (séc. XII); será nela que se estabelecem várias albergarias, leprosarias e “hospitais” (Canaveses, Teixeira, Mesão Frio), e se (re) constroem pontes ainda no séc. XII (Canaveses, Barqueiros); será este o caminho que nos inícios do século XVIII é apontado como a principal ligação das Beiras ao Porto; será ainda o mesmo itinerário que é descrito com minúcia – com suas vendas e estalagens – nas “Memórias Paroquiais” de 1758; aquele que as tropas napoleónicas, com o seu pesadíssimo exército, tentaram trilhar em 1809. É esta a via que, em 1829, faz parte de um restrito lote de itinerários transnacionais, tida como a principal ligação terrestre entre Madrid e o Porto.
 
Ponte medieval de Canaveses, segundo gravura de 1864, por Inácio de Vilhena BarbosaDesengane-se, porém, quem pense que esta importante estrada pode ter sido uma criação recente. Ela já se desenha com a distribuição dos monumentos megalíticos da serra da Aboboreira; tem todas as características do que possa ter sido uma antiga rota de transumância; e não faltam, nas suas imediações, testemunhos de época pré-romana, romana e altomedieval a atestar um povoamento só possível se proporcionado por ela.
 

A Feira da Quaresma

A Feira da Quaresma documenta-se desde 1518, o mesmo ano em que o rei D. Manuel I determinou o encerramento do Convento de São Salvador de Tuias. Celebra-se por agora o 500º aniversário do mais antigo documento que sobre a feira nos chegou. O que não significa, de todo, que só então ela se tivesse iniciado.
 
Já nessa altura era tradição que a feira se realizava desde tempos imemoriais. Diziam então as freiras de Tuías, promotoras da feira e suas diretas senhorias, que a mesma já se realizava há “dez trinta quarenta cinquenta sessenta oitenta cento duzentos anos até agora”. Sinal de que, nos inícios do século XVI, ninguém se recordava já da sua origem.
 
Porém, não sendo uma feira de iniciativa régia e realizando-se no couto de um convento, sempre escapou ao controle de reis e senhores e à máquina fiscal do Estado, pelo que não consta de nenhum registo oficial. Seria certamente abundante a documentação que sobre ela existiria no cartório do convento de Tuias, um tesouro que, infelizmente, não chegou até nós.
 
Os rendimentos que ela proporcionava no século XVI são excecionais. No século XVII, ainda era das maiores feiras do Norte de Portugal. No século XVIII, ainda atraía mercadores de longínquas paragens, como a Galiza e o reino de Castela. Mas nessa altura já são frequentes as queixas dos mercadores e foreiros de que a feira se encontrava arruinada e já não rendia o mesmo.
 
Quanto mais antigos são os documentos, maiores são as rendas da feira e maior a importância que se lhe dá. O que significa que a feira que eles nos revelam é já uma feira em franco declínio. E a sua época áurea já há muito se tinha finado. O que condiz com todos os outros indicadores sobre a remota origem desta feira: quando começa a ser revelada, já o lugar em que ela então se realiza, a aldeia de Santa Maria do Freixo, é um quase completo deserto, não dispõe dos mais básicos recursos – entre muitos outros, de água – para acolher milhares de pessoas, carece de qualquer importância económica, está afastado dos principais circuitos económicos locais e regionais e é tudo menos um lugar adequado e preparado para albergar uma grande feira.
 
Quão remota era a sua origem? Não sabemos. Mas suspeitamos. Certo é que só no século XVII se passou a realizar no centro da aldeia, em torno da igreja de Santa Maria. Até então, realizava-se em local ermo, junto de um edifício a que chamavam “Ermida de Nossa-Senhora-A-Velha” – nada menos que as velhas termas romanas –, no interior de um recinto que sempre teve – e continuava a ter – a mesma função: a de albergar um mercado periódico de âmbito regional.
 
Esse recinto fechado, que hoje conhecemos como “forum de Tongobriga”, pensado e construído nos inícios da nossa era, já serviria tal propósito numa época em que a Quaresma ainda não o era. Talvez já então a feira se realizasse na mesma altura do ano, a do equinócio da Primavera, em que se celebrava a ressurreição da natureza e ainda não a de Cristo – o que explicaria o absurdo de uma feira – e respetiva farra – com a carne como “cabeça-de-cartaz”, a começar numa sexta-feira, na Quaresma, e promovida por um convento de freiras…
 
Prazo de 1557 relativo a Feira da Quaresma (Cartório do convento de São Bento de Avé-Maria) (ADP)A sentença de extinção ditada em 1834 às comunidades religiosas; a ascensão do lugar do Marco a sede de concelho em 1852; a abertura da estrada nacional para a Régua, na década de 1870, que marginalizou o Freixo e lhe desviou o sustento; o encerramento, em 1892, do convento de São Bento de Avé-Maria, que administrou a feira ao longo de quatro séculos; e, a partir de 1894, a privatização, por leilão em hasta pública, dos terrenos em que ela se realizava; não podiam ter outro desfecho que não o fim da feira da Quaresma no Freixo.
 
Em 1905, foi transferida para a sede do concelho, mas perdeu, definitivamente, o sentido que o seu lugar de origem lhe dava. E acabou. De vez?
 

A aldeia do Freixo

Antigos caminhos feitos com gastas pedras que já há muito perderam a aspereza que nos habituamos a sentir no granito local. Pedras que mais não são que o topo dos muros romanos a aflorar à superfície. Inúmeros e minúsculos objetos, feitos em pedaços pelo arado, pela enxada e pela incúria. Trastes do tempo dos mouros para uns, preciosas fontes de informação sobre o passado para outros.
 
Velhas mas esmeradamente esquadriadas pedras, fruto do trabalho que já há muito tempo alguém teve. E que agora são parte de modestas casas, pequenas cortes de gado e toscos muros agrícolas.
 
No Freixo, a nova vida das velhas coisas de Tongobriga não se esgota, porém, neste precoce mas eficaz processo de reciclagem.
 
Uma vetusta muralha que nunca deixou de marcar o espaço da aldeia, mesmo depois de ter sido transformada em muro de socalco agrícola.
 
Aldeia de Santa Maria do Freixo (JMA)
 
Um forum que teimou em cumprir a sua função primordial durante mais de mil e quinhentos anos, muito para além do fim da civilização que o ergueu.
 
Um monumental edifício de banhos públicos que, no imaginário popular, não poderia ter servido fim mais nobre que o culto divino – primeiro como Ermida de Nossa-Senhora-A-Velha, mais tarde como Mesquita ou Capela dos Mouros.
 
Velhas domus dos tempos do Império, já destelhadas mas teimando em manter-se em pé, transformadas em cortes de gado ou tendas de feira, com os seus cubicula convertidos num qualquer espaço descoberto de um qualquer quintal onde nem o essencial poço de água falta.
 
Não fosse a dificílima tarefa de lavrar campos cobertos por um espesso manto de pedras, diríamos que aqueles que ergueram a aldeia do Freixo agradeceram aos deuses o trabalho que lhe foi adiantado pelos que, séculos antes, haviam erguido Tongobriga.
 
Certo é que até aos finais do século XVIII, Tongobriga e Freixo dificilmente se deveriam distinguir, tal era a marcante presença das ainda visíveis – e em parte utilizáveis – ruínas da primeira nos espaços e escassas construções da segunda.
 
Sujeitos a forte erosão por causa da sua topografia e pejados de pedra solta proveniente das ruínas, os terrenos da colina em que se ergueu Tongobriga não rendiam nada. E como tal nada valiam.
 
Só quando já nos aproximávamos da centúria de oitocentos, quando a expansão demográfica nas zonas rurais obrigou ao aproveitamento das terras até então desprezadas, é que se deu o verdadeiro divórcio entre a herança de Tongobriga e os seus herdeiros de Santa Maria do Freixo.
 
Arrotearam-se terras abandonadas, surribaram-se as encostas, multiplicaram-se os muros, as leiras e as sortes, as bouças e os campos, carrearam-se toneladas de terra proveniente dos férteis vales envolventes para dar espessura – e capacidade produtiva – a solos que nada produziam. E criaram-se as condições para fixar gente na aldeia. Que a partir daí cresceu.
 
Então – mas só então – as ruínas se cobriram de terra e deixaram de pertencer ao mundo dos vivos. Foi o preço que se pagou para dar aos do Freixo o sustento que a feira da Quaresma cada vez menos lhes garantia.
 

A “privatização” de um lugar

Independentemente dos habitantes – certamente muito escassos – que pudesse haver na aldeia do Freixo no século XII, o nosso primeiro rei, não as reconhecendo como privadas, dispôs delas como bem entendeu e com elas formou o couto do mosteiro de Tuias. Iniciou-se então um longo período em que estas terras foram geridas como todos os coutos monásticos: incapazes de as explorar diretamente, as freiras aforavam as suas propriedades a troco de rendas anuais, muito variáveis em função da qualidade e extensão das terras em questão.
 
Porém – elas sabiam-no e os foreiros também – as nuas fragas do alto nada produziam. E, como tal, nada valiam. Os aforamentos de Tuias reportam-se, sem exceção, aos férteis vales que rodeiam a antiga Tongobriga, mas nunca à colina em si. Em 1498, a primeira referência às terras mais altas, em torno da igreja, não podia ser mais expressiva: de tão fracas que eram, não mereciam aforamento próprio e eram anexadas, como se de um autêntico brinde se tratasse, às terras do vale. Pelas do Freixo, tão só se diz que “não se pagua cousa algũa”.
 
As terras que, de facto, despertam interesse, são as mais baixas, onde a erosão é menor e os sedimentos se acumulam mais. Aí, os espaços cultiváveis não são tão exíguos, os solos são mais profundos e, sobretudo, há água. É, pois, no sopé da colina – “nos subúrbios da aldeia” como rezam os documentos – que se instalam os primeiros proprietários independentes. Mesmo esses, obrigados a árduo trabalho de criação de socalcos e transporte de terras para dar espessura a solos que não a tinham. Foi o caso dos Serpa Pinto, que, ainda não tinha terminado o século XVIII, e já compravam “terras fragosas que não produziam fruto algum de qualidade”.
 
Mas a quase totalidade das famílias que viriam a ser proprietárias de consideráveis extensões de terras no Freixo – algumas delas com um papel decisivo na modelação agrícola dos terrenos de encosta e na transformação da estrutura fundiária da aldeia, tais como os Castros, mais tarde Vahias de Castro, e os Corte-Real, entre outros – mantiveram-se como foreiras do convento até muito mais tarde. E só com a venda dos bens monásticos em hasta pública, a partir de finais do século XIX, se tornaram efetivas donas das terras que já há muito se encontravam na sua posse.
 
A estrutura da propriedade manteve-se, no essencial, até à extinção do convento em 1892, data da morte da última freira. Os processos de inventário dos bens conventuais em Santa Maria do Freixo iniciam-se um pouco antes, em 1890, mas não foram, de todo, pacíficos. Quatro anos depois, ainda se discutiam as irregularidades, omissões e erros do inventário, composto por 130 parcelas pertencentes a 12 prazos ainda em vigor, as quais foram levadas a leilão sucessivas vezes até encontrarem comprador. O que não foi fácil.
 
Estação de São Bento (Porto). Local do antigo Convento de Avé-Maria, cuja extinção levou à privatização das terras de Santa Maria do Freixo (J-PW)Portugal haveria de deixar de ser um reino e este processo ainda se arrastava, tantos foram os leilões que ficaram desertos. Muitas das terras do Freixo, já a preços de saldo, ainda continuavam sem comprador em 1915. Algumas foram sujeitas a pelo menos oito tentativas de venda em hasta pública, simultaneamente em Lisboa e no Porto, sobre os quais o desconto chegou a atingir 70% do preço base de licitação. Sem que, mesmo assim, fossem arrematadas.
 
Privatizados – e logo depois vedados – os espaços em que se realizava a feira que lhe dava vida; e marginalizada pela construção da estrada real que lhe roubou o movimento, a aldeia do Freixo parecia novamente condenada a um abandono que só a igreja paroquial teimava em contrariar, trazendo, a espaços, o povo da freguesia ao alto da colina.
 
A História repetiu-se. E, a cada ciclo, o sítio reinventou-se. E renasceu. E, em cada renascimento, mais evidente se tornou a sua vocação intemporal. O seu genius loci. Incapaz de fixar as pessoas, continuou a atraí-las. Até hoje.
 
 
 
 
 
Os conteúdos desta secção estão publicados e sujeitos a direitos de autor. A sua utilização é livre para fins não comerciais, desde que feita a correspondente citação:
Lima, António Manuel; Menchón i Bes, Joán – Tongobriga. O Espírito do Lugar. Guia Arqueológico Visual, Porto, DRCN / CMMC, 2018.
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