A afirmação de um lugar central

É certo que só alguns dos povoados castrejos do Noroeste peninsular atingiram as dimensões e a organização que Tongobriga alcançou nos inícios da era cristã. Para além das dimensões consideráveis, da provável existência de mais do que um circuito de muralhas e pelo menos um fosso defensivo, e da sua localização estratégica com um espaço de reunião e de trocas na base do povoado, Tongobriga foi munida de um balneário dotado de uma “pedra formosa”, algo de que só as citânias ou os castros mais importantes se poderiam orgulhar.
 
A organização urbana da época ainda está, em grande parte, por conhecer, e não é expectável que a população dispusesse de quaisquer sistemas de abastecimento de água, drenagens, esgotos ou qualquer outra infraestruturação do espaço. Mas haveria já uma organização em bairros “familiares”, cada um contendo um conjunto de edificações diferentes com funções distintas (à semelhança do que tem vindo a ser observado em povoados congéneres).
 
Panorâmica da colina de Tongobriga (APF
 
Tanto quanto se conhece destes grandes aglomerados proto-urbanos, eles são já contemporâneos da integração desta região no império romano, embora possam, como neste caso, ser o resultado da transformação de um povoado mais pequeno, de origem anterior.
 
Ocupando sítios estratégicos e privilegiados, criam-se grandes aglomerados cuja urbanização, com arruamentos tendencialmente ortogonais e obedecendo a um plano prévio, é cumprida num curto espaço de tempo, fazendo parte de um fenómeno de concentração demográfica conseguido à custa dos efetivos populacionais dos pequenos povoados pré-existentes dentro de um determinado território ou de migrações internas na sequência de campanhas militares romanas, desde as campanhas sertorianas às de Augusto, que culminam com a efetiva conquista e pacificação do Noroeste peninsular e adoção do modus vivendi dos romanos.
 
Cada um destes oppida estruturava um território que podemos associar a um “principado centralizado”, liderado por um chefe guerreiro que não raras vezes aparece representado em estatuária. Estas unidades territoriais teriam, por sua vez, correspondência com uma unidade étnica que em muitos casos se reflete na toponímia posterior, já que está demonstrado um elevado grau de correspondência entre essas unidades, as paróquias suevas do século VI e os julgados da Baixa Idade Média.
 
Será o caso de Tongobriga e dos tongobricenses que nos aparecem alguns séculos mais tarde toponimicamente refletidos na paróquia sueva de Tongobria. Talvez uma análise espacial da distribuição espacial das paróquias do século VI revelasse também dados interessantes para o estudo do território dos tongobricenses.
 
É um lugar comum entre os historiadores e arqueólogos assumir que esta concentração populacional que leva à formação dos grandes oppida do século I d.C. é um fenómeno patrocinado, senão diretamente promovido, pelas autoridades imperiais romanas como estratégia de consolidação do seu domínio na região. Está ainda por estudar em que medida é que esse fenómeno poderá ser o resultado de uma movimentação voluntária da população autóctone, da qual partiria a iniciativa da sua concentração em povoados maiores e menos numerosos, fosse para facilitar a sua própria defesa, fosse como resultado natural da maturação do já longo processo de hierarquização das sociedades proto-históricas.
 

No tempo da dinastia Júlio - Cláudia

Moeda da época doImperador Augusto(APF)Bastará pegar nas pitorescas expressões usadas por Estrabão, um autor que viveu e escreveu na época de Augusto, o primeiro Imperador, para perceber que, nessa altura – e por algumas gerações mais – nem os povos autóctones se sentiam, ainda, romanos, nem os romanos os viam, ainda, como tais. Haveria de terminar a dinastia dos imperadores júlio-cláudios – entre Augusto e Nero (27 a.C. – 68 d.C.) – e assim continuaria a ser.
 
Terá sido uma época de grandes contradições, ou não fosse enorme o contraste entre tudo aquilo em que a mudança foi mais precoce e todas as outras coisas em que prevaleceram a inércia e a resistência próprias de todas as transformações profundas
 
Já se usa moeda, mas ela ainda é relativamente escassa, pelo que deveria ainda prevalecer, como diz o próprio Estrabão, “a troca de mercancias”. Já se nota a presença de materiais de importação, os quais, a par da presença de ânforas, são sinal da integração nos circuitos comerciais do Império. Mas elas são, sobretudo, peças de exceção ou até luxo, como a terra sigillata, que deveriam constituir itens de prestígio e escapar ao comum dos tongobricenses.
 
Fíbula anular, em prata (DC)
Ter-se-ão operado mudanças significativas ao nível do vestuário e dos adornos pessoais, já que ocorrem com alguma frequência adereços datáveis dos inícios da era cristã, sobretudo fíbulas.
 
Mas é ao nível da arquitetura, doméstica e não só, que as resistências são mais evidentes ao olhar de qualquer um: nos primeiros dois terços do século I d.C., continuam a construir-se casas de planta circular, com ou sem vestíbulo, integradas em núcleos familiares; continua a usar-se o balneário da “pedra formosa”. E não há, ainda, sinal da utilização de telha na cobertura das construções.
 
Entre vários outros sinais de continuidade, regista-se a predominância, na epigrafia tongobricense, dos antropónimos indígenas latinizados (Albura, Anceitus, Anicius, Atius, Catius, Medamus, Rufus), sinal óbvio de uma procedência regional dos habitantes locais, condicente com a total ausência de imigrantes e/ou cidadãos romanos que ostentem o tria nomina
Epígrafe com antroponímia indígena (DC)
Na verdade, não existe nenhuma epígrafe cuja datação aponte para esta fase, o que constitui indício de que só mais tarde se daria a generalização do uso da língua latina na comunicação quotidiana. A própria manutenção do nome Tongobriga, de origem pré-romana, e a dedicatória ao Genio Tongobricense, divindade romana acompanhada de epíteto indígena de carácter tópico, são indicadores que apontam no mesmo sentido.
 
Devemos ter em conta que uma parte significativa da população deve ter-se mantido, durante algum tempo, à margem destas transformações, e as inércias foram certamente muitas. Quanto à pequena parte que passou a usufruir dessas mesmas inovações, é de crer que isso tenha constituído uma fonte de prestígio, de promoção do estatuto social e de ostentação. A curto prazo, os indivíduos que ainda não se comportassem como romanos, que não exibissem sinais evidentes de que comungavam do mesmo modo de vida ou que não partilhassem os mesmos objetos, passariam a desejar fazê-lo, sob pena de marginalização pelos restantes.
 
Mas até mesmo aquilo que nós interpretamos como “castrejo” poderá ser, já, o resultado da assimilação progressiva de gostos e hábitos sociais típicos do mundo romano, cuja fórmula inicial de absorção passou mais por uma “reinterpretação” do que por uma “aquisição” pura e simples.
 

O forum. Uma estrutura invulgar?

Desde a sua revelação nos anos 80 do século XX, o forum de Tongobriga destacou-se, pelas suas dimensões, como uma estrutura invulgar: 139 metros de comprimento por 68,5 de largura, uma área de quase 10.000 m2. Mais tarde, a identificação da muralha e a definição do espaço habitado permitiram também perceber que o forum não só tinha uma localização periférica, mas também exterior ao perímetro urbano e à área habitada.
 
Contrariamente à ideia de forum como “praça pública”, por natureza um espaço aberto cuja configuração é definida pelo conjunto de edificações que a rodeia, e que, enquadrada na malha urbana, é servida por múltiplos acessos, em Tongobriga foi construído um “recinto” fechado, com uma só entrada, de acesso controlado, definido por um muro perimetral que o encerra.
 
No seu interior, foram encontradas peças molduradas que poderão fazer parte de um altar, semelhante a outros da época de Augusto, que lembram as que faziam parte de um altar destinado a albergar uma estátua equestre que foi identificado no Monte Mozinho (Penafiel), embora este monumento tivesse uma inserção urbana distinta.
 
O forum revelou ainda um imenso conjunto de estruturas negativas, que poderão estar relacionadas com estruturas de madeira, cobertas com materiais perecíveis. Algumas delas, compostas por várias séries de alinhamentos paralelos abertos no solo, assemelham-se às existentes nos horrea e preenchem de forma extensiva todo o recinto. Poderão estar associadas a construções destinadas a armazenamento, que requerem uma boa drenagem e arejamento.
 
“Forum pecuarium”: proposta preliminar de reconstituição virtual (D)
 
No interior dessas estruturas negativas, foram recolhidos materiais datáveis da dinastia júlio-claudiana. Entre eles, avultam as cerâmicas de tradição castreja e alguns raros exemplares de cerâmicas brunidas com decoração estampilhada cuja cronologia não ultrapassa a primeira metade do século I. O que é condicente com a sua datação por Carbono 14, já que o elemento mais recente utilizado no seu preenchimento foi datado de 77 +/- 26 d.C. (74-220 cal AD a 2σ).
 
Tudo aponta, pois, para que Tongobriga tenha recebido um grande espaço de mercado, aliás condicente com o primitivo significado da palavra forum, de cronologia possivelmente júlio-cláudia, bem antes das transformações urbanas promovidas com a dinastia flávia.
 
Nesse espaço de funções essencialmente comerciais onde se poderiam promover reuniões periódicas de âmbito regional – eventualmente de todo um populus – fazia sentido a promoção do culto imperial, já que ele é um instrumento fundamental para a afirmação da administração romana e para a difusão de um novo modelo de vida. Nestes fora, as funções de espaço lúdico e de reunião, de santuário e de mercado, surgem sempre interligadas. Em Tongobriga, merece destaque a função de mercado, dada a extensão e quantidade de estruturas possivelmente relacionadas com o armazenamento (horrea) e com áreas destinadas à compra e venda de produtos.
 
Um recinto fechado é muito mais condicente com a função de forum pecuarium, enquanto espaço de transação e armazenamento de bens e produtos, e local de realização das feriae e nundinae (mercados locais permanentes de frequência periódica). O que condiz com a densa ocupação do seu interior com estruturas destinadas ao armazenamento e também à compra e venda, as quais, por terem sido construídas em materiais perecíveis, não deixaram elementos arquitetónicos monumentais.
 
Reconstituição do pedestal possivelmente destinado a estátua equestre, em posição central no recinto do forum
 

Enquadramento político-administrativo

A região da Callaecia, onde Tongobriga se insere, só foi promovida à categoria de província com a reforma de Diocleciano, nos finais do século III. Antes disso, toda esta região a Norte do rio Douro terá sido, segundo alguns autores, inicialmente integrada na Lusitania (com capital em Emerita Augusta, hoje Mérida) para mais tarde passar a fazer parte da Hispania Citerior Tarraconensis – ou, simplesmente, Tarraconense – com sede em Tarraco, hoje Tarragona.
 
Segundo Jorge de Alarcão, a integração de Tongobriga e de toda a região a Norte do Douro na Tarraconense ter-se-ia dado logo aquando da reforma administrativa que conduziu à criação dessa província, juntamente com a Bética e a Lusitânia, entre 16 e 13 a.C.. No tempo da dinastia flaviana (de 69 a 96 d.C.), a divisão tripartida da Península Ibérica em Bética, Lusitania e Tarraconense, bem como a integração de Tongobriga nesta última, estavam já perfeitamente consolidadas.
 
Igualmente já consolidada no tempo dos Flávios, estava a divisão provincial em conventus jurídicos, instituída no tempo de Augusto. Situada a Norte do rio Douro, Tongobriga estava integrada no conventus bracaraugustanus, com sede em Bracara Augusta. Quanto à divisão do conventus bracaraugustanus em civitates, poderá não ser atribuível a Augusto nem a nenhum dos seus sucessores da dinastia júlio-claudiana, mas apenas à dinastia seguinte, a dos Flávios, coincidindo essa organização do território com as profundas mudanças que o Noroeste peninsular revela ter sofrido no último terço do século I d.C..
 
Tongobriga assiste então a um crescimento exponencial do investimento construtivo. No período da dinastia flávia – muito provavelmente durante o reinado dos imperadores Tito e/ou Domiciano, Tongobriga foi alvo de um projeto de transformação urbana, delineado por arquitetos e engenheiros que não tinham, claramente, origem autóctone, e que eram profundos conhecedores dos princípios vitruvianos de arquitetura.
 
A investigação já realizada sobre esta transformação de Tongobriga durante o último quartel do século I e primeiras décadas do século II tem valorizado a sua integração no desenvolvimento da administração imperial flaviana e no quadro de um movimento muito mais amplo de construção de cidades no vale do Douro e em toda a Meseta Norte, compreensível à luz da iniciativa imperial de reordenamento territorial e de consolidação da sua rede administrativa.
 
Províncias e Conventus da Hispania romana (JMA)No caso de Tongobriga, não resta dúvida que as obras públicas e a renovação urbana que foram delineadas requeriam conhecimentos, capacidades e meios técnicos e instrumentais que não estavam ao alcance da população local.
 
Esse programa implicou a intervenção direta, no terreno, de um conjunto de arquitetos e engenheiros de elite, não só na fase de planeamento como também na de execução. Mas falta ainda perceber quem terá promovido a sua intervenção em Tongobriga. Quem terá custeado os elevadíssimos encargos que essa intervenção acarretou? Apenas o erário público, disponibilizado pela administração provincial? Ou, na perspetiva já colocada, de Tongobriga já desempenhar um papel de “lugar central” desde, pelo menos, os inícios da era cristã, haveria já elites indígenas locais, patrocinadas pela administração romana, ou até mesmo abastados proprietários locais, de origem autóctone, capazes de participar ativamente na promoção do programa de renovação urbana a que aqui assistimos no último  terço da primeira centúria?
Províncias e Conventus da Hispania romana (JMA)

A rede viária regional

As vias terrestres e fluviais que serviam Tongobriga têm sido apontadas como um dos principais motivos que potenciaram o seu desenvolvimento urbano em época romana.
 
Não porque o sítio fosse grande produtor de alguma espécie de bem que necessitasse de bom escoamento, uma vez que não lhe são reconhecidas especiais aptidões minerais, agrícolas ou outras. Mas porque, estando situado numa área em que se dá a confluência de vários eixos, dispôs das condições ideais para crescer como ponto de encontro e local de passagem.
 
Rede viária regional de Tongobriga (JMA)A principal via de ligação desta área com o exterior era, sem dúvida, o rio Douro, o qual constituiu uma via fundamental de ligação entre o interior e o litoral atlântico. Foi considerado por Plínio o Velho como “um dos maiores rios da Hispania” e capaz, segundo Estrabão, “de ser navegado por grandes navios”. A investigação arqueológica tem comprovado a importância económica deste rio através da identificação de vários locais onde existiram instalações portuárias, particularmente ativas no Baixo Império e Antiguidade Tardia.
 
Nunca, em época romana, o Douro mereceu a construção de pontes. Mas são vários os locais onde, tradicionalmente, se fazia a sua travessia. Para citar apenas as mais próximas de Tongobriga, qualquer uma delas com vestígios romanos nas proximidades, apontam-se Entre-Os-Rios / Foz do Tâmega, Várzea do Douro / Foz do Paiva, Porto Manso / Porto Antigo, Aregos, Frende / Porto de Rei e Barqueiros / Barrô. Não há, porém, unanimidade entre os que se dedicam a este tema sobre qual seria a travessia mais importante.
 
Naturalmente, a importância económica do rio Douro para Tongobriga dependia da existência de ligações, fluviais ou terrestres, entre um e outro.
 
A ligação fluvial seria garantida pelo Tâmega, que tinha condições de navegabilidade entre a sua foz, onde se situava Tameobriga (Várzea do Douro), e um local ainda hoje designado Portinho. Quer o Portinho, quer o importante vicus de Várzea do Douro, têm sido considerados como instalações portuárias fundamentais para o desenvolvimento de Tongobriga.
 
Marco miliário de Tongobriga (APF)Quanto às ligações terrestres, eram várias. Uma delas sobressai pelo facto de integrar no seu percurso a monumental ponte romana de Canaveses – por alguns autores atribuída ao imperador Trajano – e por ter merecido a marcação com marcos miliários, dos quais se conhecem cinco, todos datáveis dos séculos III ou IV (um em Tuias, dois no Freixo, um em Soalhães e um na Carreirinha, Baião).
 
Este troço de estrada imperial, marcado por miliários entre o Tâmega e o Douro, faria a ligação entre a já citada ponte de Canaveses e um dos já mencionados locais de travessia do Douro, e é por muitos considerada como parte integrante de uma importante via, ligando duas capitais provinciais, Bracara Augusta (hoje Braga) e Emerita Augusta (hoje Mérida). Não há, porém, provas inequívocas de que esse itinerário tenha sido projetado enquanto percurso único e contínuo, o qual não consta do célebre Itinerário de Antonino nem de qualquer outra fonte clássica. Ele é, no entanto, abundantemente referido na bibliografia, embora haja autores que lhe atribuem outros percursos totalmente diferentes.
 
Lino Tavares Dias, que estudou de forma mais aprofundada a viação romana nesta região, associando o traçado de antigos caminhos à concentração de vestígios de povoamento romano nas suas proximidades, aponta ainda a existência de outras vias no aro de Tongobriga. Para além das já citadas ligações entre Braga e Mérida e de Tongobriga a Várzea do Douro, é apontada, entre outras, uma estrada que, por Amarante, levava à travessia da serra do Marão.
 

No tempo dos Flávios: uma transformação radical

Ara votiva à deusa Fortuna (DC)Na sequência das reformas flavianas que estenderam o ius latii a toda a Península e assim elevaram muitas cidades à categoria jurídico-administrativa de municípios, prepararam-se extensos programas de obras públicas, cuja execução, por exigir avultados investimentos e mão-de-obra, se poderá ter prolongado até aos reinados de Trajano (98–117) e Adriano (117–138).
 
No caso de Tongobriga e área envolvente, é difícil dissociar os avultados investimentos que foram programados para o espaço urbano e os que, sensivelmente pela mesma época, foram exigidos, a menos de 2 km. de distância, para a construção da monumental ponte romana de Canaveses, dita “de Trajano”. A julgar pela marcação das milhas a partir de Tongobriga, a via romana que, passando o Tâmega em Canaveses e logo a seguir em Tongobriga, ligava Bracara Augusta a Emerita Augusta, deverá ter sido, senão aberta, pelo menos, renovada nessa mesma altura.
 
Outros grandes investimentos públicos na região, terão sido exigidos também pela construção das instalações portuárias, ainda muito mal conhecidas, mas que certamente existiram em Tameobriga, hoje Várzea do Douro, na confluência entre os rios Douro e Tâmega. Esse porto fluvial, ligado por estrada a Tongobriga, deverá ter desempenhado um papel muito importante no abastecimento e dinâmica comercial exigida por um centro urbano como o que aí se pretendeu erguer.
 
Em consonância com a promoção de Tongobriga a capital de civitas, terá sido delineado um projeto global de transformação urbana assente na criação de uma malha urbana de traçado hipodâmico, com modulação baseada no actus quadratus e cujos eixos, por princípio perpendiculares entre si e com orientação N-S / E-O, terão sido, em algumas zonas, adaptados à topografia, através da criação de eixos diagonais, de orientação a 45⁰. Essa “grelha” terá, a partir de então, sido alvo de um intenso processo de urbanização, que se prolonga nos séculos seguintes. A arquitetura doméstica inspirada em modelos importados substitui a arquitetura de tradição autóctone. E ainda nesta fase, também integrado na mesma malha urbana, é construído um edifício termal num espaço contíguo ao do balneário castrejo, que terá sido então desativado.
 
Possível modulação urbana de Tongobriga, adaptada à topografia local (D)Para Tongobriga, foram destinadas todas as grandes transformações que são exigidas pela criação de uma cidade romana: a instalação das infraestruturas necessárias à vida quotidiana no espaço urbano; e a construção de um conjunto de edifícios públicos que passam a constituir o cerne da vida da comunidade. A vida doméstica e quotidiana dos tongobricenses sofreu igualmente transformações profundas, já que no espaço de duas ou três gerações, mudou radicalmente a forma de construir e utilizar as habitações, as suas dimensões e a sua organização interna, a forma de as cobrir e de as decorar. E tudo isto no contexto de uma continuidade do substrato populacional residente.
 
Em Tongobriga, os arquitetos que planearam esta “revolução urbana” ter-se-ão inspirado em vários modelos. De acordo com os estudos desenvolvidos por Charles Rocha, Lino Tavares Dias e Pedro Alarcão, o que se conhece da modulação urbana e de edifícios como o teatro apontam para o modelo de Bracara Augusta; e a distribuição e a relação espacial entre teatro e anfiteatro têm paralelos muito semelhantes em Emerita Augusta. Já a disposição dos compartimentos das termas revela inspiração no mesmo modelo que se observa, por exemplo, em Volubilis (Marrocos).
 

A estrutura urbana

Em locais de acidentada topografia e, especialmente nos sítios com densa ocupação anterior, deveriam ser imensas as dificuldades que se punham à aplicação prática dos princípios ideais definidos por Vitrúvio no seu tratado “De Architectura”.
 
Tongobriga. Reconstituição virtual da modulação urbana adaptada à topografia local (D)Para além da escassez de arquitetos capazes de planear e executar tais planos, e da necessidade de uma administração local forte e culturalmente desenvolvida, capaz de a financiar e fiscalizar a sua implementação, há que pensar na formação dos operários necessários e na montagem de toda a logística necessária para as obras. Embora, a propósito destas últimas dificuldades, Jorge de Alarcão lembre que é mais difícil imaginar as populações autóctones a mudarem os seus hábitos mentais, culturais e sociais, passando a interessar-se pela frequência das termas, do teatro e do anfiteatro, do que as ver a aprender as técnicas necessárias para participarem, como mão-de-obra, na construção desses mesmos edifícios.
 
É de facto verdade que a construção de uma cidade, mais do que um mero “programa de obras públicas”, tinha que ser um “programa de educação social”.
 
Teremos ainda de contar com problemas de outra ordem. Além de ser preciso conceber a obra, era preciso acompanhar a sua execução e ter os meios necessários para a sua integral implementação no terreno. Já Plínio, o Moço, se queixava de obras começadas pelas cidades sem que a sua conclusão estivesse assegurada. Aliud est dicere aliud est facere
 
Seja qual for o processo social de criação de um novo urbanismo, como lembra Jorge de Alarcão a propósito de espaços que já eram densamente habitados, “a expropriação e as demolições tinham, naturalmente, os seus limites” se se queria manter o substrato populacional que dava vida ao lugar.
 
A verdade é que Tongobriga terá sido, efetivamente, objeto de um plano de profundo reordenamento urbano. Charles Rocha verificou que todos os vestígios de estruturas romanas, quer dos edifícios públicos, quer de habitações e até a própria topografia do terreno têm a mesma orientação, “uma tendência direccional que ronda os 24º em relação ao eixo E/O – N/S, o que corresponde aos preceitos de Vitrúvio”. Esse planeamento abrangeu não só o espaço amuralhado e habitado como também a área extramuros onde se implantaram os edifícios públicos.
 
Desse planeamento, resultou a implantação de uma malha urbana que abrangeu cerca de 13 hectares de área amuralhada e habitada, acrescidos do espaço onde se implantaram os edifícios públicos e monumentais (forum, termas, teatro e anfiteatro), num total que ultrapassa os 20 hectares. Essa malha baseia a sua modulação em unidades de medida romanas como o actus (35,52m) e o actus quadratus (1261,44m2), confirmando as proporções vitruvianas do planeamento de que Tongobriga terá sido alvo a partir de finais do século I d.C..
 
Em síntese, têm sido realçados todos os aspetos em que se evidencia, a par da complexidade e da monumentalidade, a estandardização do modo romano de planear e executar o urbanismo enquanto reflexo de uma mudança profunda no modelo de vida do habitante de Tongobriga.
 

A(s) muralha(s)

Entrada no recinto amuralhado de Tongobriga. Reconstituição virtual (D)Já há muito tempo se conheciam referências documentais a uma muralha em Tongobriga. Pela sua monumentalidade, extensão e configuração arredondada, como que abraçando toda a aldeia, essa muralha manteve-se à vista de todos, pelo menos, até finais do século XVIII, sem que se tenha perdido, sequer, a noção da sua função original. Mas só em 2005 ela foi de novo trazida à luz do dia, com as escavações arqueológicas realizadas ao abrigo de uma colaboração com a Universidade de Brown (Rhode Island, EUA ).
 
A sua descoberta resultou da conjugação de vários fatores: a identificação de uma nova área de necrópole nas imediações das termas romanas; a constatação de que o perímetro habitado de Tongobriga respeitava o princípio da não sobreposição com o espaço de necrópole; e a notória alteração da topografia local entre o espaço dos vivos e o espaço dos mortos, alteração essa que era visível até ao nível da organização e orientação dos socalcos e dos campos agrícolas.
 
A linha que separa as duas áreas acima descritas estava bem marcada no terreno por um extenso muro moderno que se distinguia de todos os outros, não só pela sua orientação como também pelo facto de ser substancialmente mais alto. A conclusão não poderia ser outra: esse muro escondia uma estrutura anterior, que, na Antiguidade, sempre delimitou o perímetro habitado, separando-o da necrópole. Estava descoberta uma muralha em Tongobriga.
 
A definição integral do circuito amuralhado permitiu aferir a sua relação com o espaço classificado como Monumento Nacional: no tramo Norte, o limite da área classificada e a muralha são genericamente coincidentes; nos tramos Sul e poente a área classificada excede consideravelmente o espaço amuralhado, abrangendo também o forum e as termas; enquanto que a nascente, a muralha abrange uma área situada abaixo da estrada nacional 211, excedendo, por conseguinte, o perímetro classificado.
 
Muralha de Tongobriga (APF)
Este circuito amuralhado delimitava uma área que excede os 13 ha. e tinha um perímetro total de aproximadamente 1,5 km., assente numa estrutura com cerca de 1,7 m. de espessura, de paramento duplo com miolo constituído por pedra miúda. Era acompanhado, pelo exterior, por um fosso, ainda observável nas vertentes Norte e Sul. A parte que foi escavada, já reduzida aos alicerces, revelou sinais de ter sido várias vezes alvo de reparações e reconstruções, realizadas sobre uma construção que, na sua base, tinha um aparelho de construção “em espinha”.
 
Até ao momento não se identificou com absoluta certeza nenhuma das portas que se abriam nesta cintura de muralhas. O prolongamento dos principais eixos N–S e E–O que ainda permanecem na topografia e no ordenamento da atual aldeia do Freixo apontam para a possível existência de quatro portas: a Norte e a Sul coincidindo com os pontos em que a rua principal interseta a linha amuralhada e a Este e a Oeste no prolongamento de um caminho perpendicular àquele, que passa sensivelmente no centro do perímetro amuralhado.
 
A confirmação da existência de mais muralhas em Tongobriga carece ainda de estudos mais aprofundados. A topografia e a orientação das construções sugerem a possibilidade de um outro circuito, em torno do núcleo central da aldeia. E tem sido apontada como certa a existência, na encosta Sul, de um outro circuito, mais exterior, em forma de bolsa, construído como forma de abranger a área em que se situam o forum e as termas. Porém, essa possível muralha exterior poderá ser parte integrante da estrutura do primitivo castro, já que permitiria, à semelhança dos seus congéneres, delimitar um Muralha de Tongobriga (APF) espaço aberto de uso essencialmente agrícola e pecuária.
 

A arquitetura doméstica

Apesar de Tongobriga já há muito estar plenamente integrada na Hispania Romana, seria preciso esperar várias gerações, até aos finais do século I, para assistir a transformações significativas no seu urbanismo e, em particular, na sua arquitetura doméstica.
 
No interior do espaço amuralhado, as escavações arqueológicas vão revelando, aos poucos, a sobreposição de um novo urbanismo com casas de tipo itálico – ou seja, domus de planta retangular e pátio central, inspiradas em modelos importados – à malha castreja que define os núcleos familiares que enquadram as casas de planta circular.
 
Tudo indica que as novas casas foram construídas e habitadas por descendentes dos que habitaram em casas de tipo castrejo, pelo que a mudança radical da arquitetura doméstica pode ser vista como símbolo da adoção do modo de vida dos romanos pelas populações autóctones. Sendo certo que o desenho e as técnicas de construção indiciam a presença de especialistas romanos, não há qualquer prova da instalação, em Tongobriga, de colonos ou imigrantes.
 
As velhas construções castrejas são desmanteladas, o seu espaço é reocupado com novas construções e as suas pedras são recicladas nas novas domus. Esta transformação é particularmente visível no sector mais setentrional do espaço urbano, no qual as escavações já revelaram, total ou parcialmente, cerca de uma dezena de casas romanas.
 
Embora as primeiras casas, do período correspondente à dinastia flávia, tenham ainda uma planta poligonal irregular, aproveitando os afloramentos graníticos e adaptando-se à topografia irregular, as domus que lhes sucedem já têm uma planta e organização mais regular, buscando a ortogonalidade, o que se traduz numa malha urbana mais geométrica, definida por eixos tendencialmente perpendiculares. Pela sua geometria e qualidade construtiva, destacamos a “Casa das Escadas”, a “Casa do Poço” e a “Casa do Impluvium”.
 
Reconstituição virtual de quatro domus romanas de Tongobriga (D)
 
Esta última constitui um excelente exemplo de arquitetura doméstica de época imperial. Ela representa, de forma eloquente, a adaptação de modelos arquitetónicos importados à realidade local, pois embora essa inspiração seja evidente, a sua construção recorreu exclusivamente ao granito local, sem utilização de materiais ditos “nobres” ou de importação. Igualmente ausente da arquitetura doméstica privada de Tongobriga, está a utilização de pavimentos em mosaico e de estatuária ou qualquer outro tipo de escultura decorativa ou ornamental.
 
Reconstituição virtual do átrio centr
Porém, existem vestígios que revelam, senão luxo, pelo menos um elevado grau de conforto: alguns dos cubicula (sing. cubiculum) mostram ter tido soalho de madeira sobre o frio granito que lhes está na base e outros revelam ter tido paredes estucadas com vestígios de pintura. Nas áreas comuns, subsistem ainda restos de pavimento em opus signinum.
 
Tal como as restantes casas de tipo itálico, a chamada “Casa do Impluvium” organiza-se em torno de um pátio central descoberto – fonte de luz e de água – à volta do qual existe um corredor de circulação acessível a todos os compartimentos. Este átrio está rodeado por uma colunata que sustenta uma cobertura. No espaço aberto, ao centro, existe um tanque – o impluvium – destinado a recolher a água da chuva, posteriormente utilizada para fins domésticos. Ocupa um espaço de 33 x 22 pes, obedecendo, assim, a uma proporção vitruviana.
 
Com uma eventual exceção, a construção doméstica de raiz parece cessar, em Tongobriga, no século IV. A partir daí, a atividade construtiva revela pouca qualidade e reduz-se à transformação das casas já existentes, que são objeto de remodelações, quer através da alteração das suas divisões internas, quer através da abertura ou encerramento de acessos, sempre através de intervenções de menor qualidade arquitetónica.
 
Casa do Impluvium Casa das Escadas Casa do Poço Panorâmica do espaço urbano de Tongobriga
 

A vida quotidiana

Sobre a vida quotidiana da maioria da população que, em época romana, vivia em Tongobriga, não podemos ter a veleidade de pensar que conheceremos os seus detalhes ou que conseguiremos reconhecer os seus objetos através da arqueologia.
 
Não terá sido sequer uma pequena minoria que alcançou a riqueza e o estatuto necessários para se poderem dar ao luxo de se deixarem de preocupar, por um minuto, com a mais básica luta pela sobrevivência diária, pelo que tudo aquilo que se possa escrever sobre a vida quotidiana do cidadão romano, quer ao nível da atividade doméstica entre as quatro paredes de uma domus, quer ao nível da vida em sociedade com a ida às termas, ao forum ou ao teatro, não passará do retrato de uns poucos afortunados.
 
Mas é sobre esses – os que aderiram a um novo modo de vida e tiveram posses para aceder aos bens materiais, móveis e imóveis, que revelam essa mudança – que a investigação arqueológica nos transporta, quando nos mostra as casas, as ruas e os edifícios públicos – sobretudo forum e termas – frequentados entre os séculos I e V da era cristã.
 
Se, como é hábito dizer, a nossa casa reflete o que somos, a mudança na vida quotidiana de alguém que passa de uma cabana circular com menos de 20 m2 para uma grande domus que chega a ultrapassar os 300 m2, deve ter sido brutal.
 
Mas nem mesmo as domus mais ricas de Tongobriga chegam ao luxo que se ostenta noutros pontos do Império. Já dispunham de água – recolhida no tanque do impluvium – mas em nenhuma se encontraram sinais de latrinas privadas; já dispunham – algumas delas – do conforto do soalho de madeira, mas nenhuma revela compartimentos aquecidos com hipocausto, ou termas privadas, que também as havia noutros locais; chegam a ter quatro cubicula, mas nenhum deles – nem sequer o triclinium – com pavimento em mosaico; a decoração parece resumir-se ao estuque pintado, sem sinais de estatuária ou materiais nobres.
 
Reconstituição virtual da estrutura da “Casa do Impluvium” (D)
 
As mudanças no quotidiano da vida doméstica revelam-se aos arqueólogos sobretudo através de uma grande diversidade de materiais cerâmicos, que vão desde as peças comuns de armazenamento e do vulgar serviço de mesa ao luxuoso conjunto de louças importadas, que nos transportam em pensamento até às rotineiras três refeições (ientaculum, prandium ou cibus meridianus e cena) que preenchiam o dia-a-dia do cidadão romano. Da sua vivência religiosa íntima e privada, cumprida num qualquer lararium, chegaram até nós apenas pequenos amuletos e dedicatórias em altares domésticos.
 
Não é, porém, na vida privada, mas sim na frequência dos espaços públicos, que melhor se cumpre essa condição de cidadão. Ao romano não bastava sê-lo, era preciso, também, parecê-lo. E, sobretudo, mostrá-lo. É, pois, essencial a ida às termas públicas, ao forum, e aos edifícios de espetáculos, quando eles estão disponíveis.
 
É nos espaços públicos, sob o olhar atento dos seus pares, que faz sentido, no modo de vida do romano, o desfrutar do ócio e dos prazeres da vida, a exibição do luxo ou a ostentação do poder que se possa ter alcançado.
 
Inebriados pela monumentalidade das termas e do forum, os habitantes de Tongobriga, feitos cidadãos de Roma, deverão ter incluído nos seus hábitos quotidianos a sauna nas termas públicas e a deslocação ao enorme espaço de sociabilização que o forum constituía. Cumpria-se, assim, a função política e social dos edifícios públicos: ao passarem a fazer parte do quotidiano, tornaram-se não só demonstrações públicas de poder, mas também eficazes formas de controlar a população que assim se sentiria verdadeiramente romana.
 
Cozinha Átrio Quarto Impluvium
 

As termas públicas

Embora nunca a população local tenha deixado de conviver diariamente com umas enigmáticas e monumentais ruínas que sempre se mantiveram visíveis no sopé da colina onde se erguera Tongobriga, só as escavações arqueológicas aí realizadas na década de 80 do século XX permitiram perceber a verdadeira natureza do edifício a que tinham pertencido.
 
As suas abóbadas de cobertura mantiveram-se quase intactas, pelo menos em parte, até meados do século XIII. No século XVI, ainda eram conhecidas como “Ermida de Nossa Senhora a Velha”, talvez em resultado da sua reutilização como templo cristão. A partir do século XVII, na sequência da Contra-Reforma católica, passou a designar-se “Mesquita”, mais tarde ainda “Capela dos Mouros” e “casa dos seus falsos deuses”. Hoje sabemos que originalmente não se destinava a local de culto, embora, no imaginário popular, tão monumental construção não pudesse ter função menos nobre que essa. Tratava-se das termas públicas de Tongobriga, erguidas no último quartel do séc. I depois de Cristo.
 
A sua localização, extramuros e com acesso direto, por escadas, de e para o imenso recinto fechado que lhe está adjacente, além de mostrar que os seus principais destinatários seriam os que se deslocassem ao forum – fossem eles habitantes locais ou não – não podia ser mais reveladora do seu significado.
 
Com efeito, ao contrário do que acontece no perímetro amuralhado – dentro do qual o acesso a água só seria possível com recurso a abertura de poços – na área em que se situam as termas existem nascentes e linhas de água, o que garantia a disponibilidade de um recurso que era essencial para o seu funcionamento.
 
Reconstituição virtual do exterior das termas públicas de Tongobriga (D)
 
Porém, sabemos hoje que o abastecimento de água às termas romanas de Tongobriga fazia-se com recurso a uma cisterna em que se recolhiam as águas pluviais – que forneciam o frigidarium e o caldarium – e a uma canalização, em grande parte subterrânea, que conduzia a água proveniente de nascentes situadas do outro lado do forum até à natatio.
 
Não foi, portanto, o acesso direto a água que determinou a localização das termas. A sua implantação, com uma carga simbólica extremamente forte, teve como intuito substituir o balneário castrejo, inutilizando-o e cortando-lhe o acesso, marcando de forma muito expressiva a adoção de um novo modo de vida, de acordo com os padrões do cidadão romano, para quem a frequência das termas representava muito mais do que um mero hábito de higiene pessoal.
 
A construção das termas implicou igualmente a desativação do fosso “defensivo” que acompanhava, pelo exterior, o perímetro amuralhado – se é que ele já não havia sido desativado antes – e que foi integrado no sistema de escoamento de águas dos esgotos das termas romanas, através da abertura de uma estreita canalização no fundo do fosso.
 
Todo o edifício se enquadra no espaço correspondente a um actus quadratus e está construído com base em módulos de 5 pes de 29,6 cm. cada um: como exemplos, podem apontar-se o frigidarium, que tem 3 x 8 módulos, o tepidarium e o caldarium, que têm, cada um, 4 x 3 módulos, este último incluindo duas banheiras de 3 x 1 módulos. As fornalhas ocupam uma área de 6 x 3 módulos e o corredor de serviços, 10 x 2. O espaço da natatio ocupa 9 x 8 módulos, neles incluído o tanque central, com 6 x 5.
 
Exterior das termas públicas de Tongobriga. Grande plano (D) 57
 

Ser romano... usando as termas

Uma vez chegados às termas, vindos diretamente do forum ou não, os utentes teriam acesso ao vestibulum. Daí poderiam aceder ao apodyterium, uma sala munida de hipocaustum, que pelo menos no inverno seria aquecida. Se necessário, dispunham de foricae, situadas num anexo que poderia servir não só os utentes das termas, mas também os que frequentassem o forum.
 
Depois de deixarem as suas roupas nas prateleiras situadas a meia altura, mesmo acima dos bancos que percorriam as paredes, podiam entregar outros valores – anéis, pulseiras, colares, dinheiro, etc. – aos capsularii, escravos ao serviço das termas. Os mais desconfiados podiam pô-los à guarda de um servo que os tivesse acompanhado. Era então altura de se untarem e decidirem se começavam por uma ida ao caldarium para um banho quente, não esquecendo, obviamente, a paragem no tepidarium – sala seca e aquecida – para que o corpo se pudesse adaptar com mais facilidade ao ambiente quente e húmido do caldário; ou por uma sessão de exercícios físicos (alguma corrida, exercícios de ginástica, algum pugilato ou luta livre…) na palaestra, um espaço de ar livre com chão em opus signinum.
 
Após o exercício físico, com a ajuda do strigilum, os óleos com que se tinham untado, assim como o suor provocado pelo esforço físico, eram raspados para pequenos recipientes. Este ato de raspagem aumentava a temperatura do corpo, pelo que não seria estranho que de seguida os utentes se dirigissem ao frigidarium para um banho frio. Outros iriam para o tepidarium suar um pouco mais, seguindo depois para o caldarium.
 
Interior das termas. Áreas de produção de calor e zonas aquecidas (D)
 
Este circuito e estas atividades no interior do edifício e na área da palestra não tinham uma sequência obrigatória. Aliás, durantes as várias horas de permanência nas termas, os utentes usavam todas as salas por mais de uma vez, alternando entre o exercício, os banhos quentes e os banhos frios. Conversar era uma atividade constante, assim como comer e beber.
 
Em Tongobriga, o período de verão nas termas tinha ainda mais uma atividade do agrado dos utentes: os banhos de água fria, ao ar livre. A atividade realizava-se na natatio, piscina que ocupava um espaço de 158m2 e tinha capacidade para 112.320 litros de água.
 
Importantes nas termas eram as zonas de serviço: corredores e áreas de aquecimento da caldeira que servia os alveii com água quente, bem como a área dos praefurnia dos hipocaustos do tepidário e do caldário; armazenamento de lenha; controlo de águas e tubagens; manutenção de temperatura das águas da caldeira vertical que abastecia os tanques do caldário; manutenção do fogo, através de portas metálicas, nas fornalhas que aqueciam os fornos, os quais, por sua vez, aqueciam o chão e as paredes do caldário e do tepidário; limpeza dos fornos e fornalhas; limpeza das salas; renovação de águas do frigidarium e natatio, etc. eram tarefas executadas por dezenas de escravos, cujo movimento se fazia fora do alcance do olhar dos utentes.
 
Excetuando a palaestra e a natatio, que eram a céu aberto, todo o edifício das termas era coberto: as áreas de serviço (corredores e zona das fornalhas) tinham pesadas abóbadas de opus caementicium. Todas as outras eram cobertas por telhado assente em travejamento de madeira.
 
Apodyterium Frigidarium Caldarium Natatio
 

O fim do mundo? Ou apenas o fim das termas?

Um bispo, de seu nome Hydatius, da cidade romana de Aquae Flaviae – como Tongobriga situada sobre o rio Tâmega – legou-nos uma famosa Crónica que prenuncia o fim do mundo. Membro da elite hispanoromana de então e provavelmente descendente de um alto funcionário da Callaecia, Idácio de Chaves viveu no século V e, como tal, assistiu à chegada e instalação dos Suevos no noroeste peninsular e à consequente desagregação da administração provincial do Império.
 
Consciente de que as mudanças não eram apenas circunstanciais, legou-nos na sua Crónica o testemunho de uma sucessão de catastróficos acontecimentos que prenunciam o fim de uma era. Entre eles, até fenómenos naturais, como os terramotos, são vistos como prenúncios do Apocalipse. Um desses terramotos levou mesmo ao colapso das termas públicas de Aquae Flaviae. Com a queda das paredes do edifício termal romano, parecia querer cair também um estilo de vida e toda uma civilização.
 
Descendo o Tâmega, a escassas 60 milhas de distância, também pela mesma altura se celebrava em Tongobriga o modo de vida dos romanos com uma ida às termas públicas, até então ainda em plena utilização. Mas também aqui um dos símbolos maiores da civilização poderá não ter sido poupado aos cataclismos naturais, vistos como sinais do fim dos tempos.
 
Aquando das escavações arqueológicas que, nos anos 80, puseram a descoberto os corredores de serviço das termas, uma intrigante descoberta foi feita: no interior do corredor das áreas de serviço, foram exumados restos humanos e ainda um esqueleto de um cavalo, não se sabe se em relação um com o outro. Não terão sido enterramentos intencionais, mas sim o resultado de um acontecimento, brusco e inesperado, que os surpreendeu no interior do edifício sem hipótese de fuga: as paredes ruíram, sepultando-os sob toneladas de pedras e outros materiais de construção.
 
Termas: escavação arqueológica (AAF)Através da datação por radiocarbono desses ossos, foi possível concluir que esse súbito acontecimento ocorreu entre os anos 280 e 440 da era cristã. Um intervalo de tempo demasiado largo para o podermos associar especificamente a qualquer um dos factos conhecidos para essa época. Não obstante, um intervalo que não só abrange o conturbado período de que se queixava o bispo Idácio, como também o momento - última década do séc. IV ou primeiros anos do séc. V – da derrocada, também ela súbita, das termas medicinais de Chaves. Demasiadas coincidências para estarmos a falar de motivos diferentes? Não o sabemos.
 
Certo é que, em Tongobriga, a queda, mesmo que parcial, da cobertura das termas na zona do corredor de serviço, inviabilizou o seu uso como termas, já que o edifício deixou de dispor das infraestruturas de produção de calor. Sem acesso às fornalhas, o edifício não pôde continuar a funcionar com banhos aquecidos depois dessa queda. O que não significa que tenha sido abandonado.
 
Termas: derrube das abóbadas (AAF)Com efeito, as escavações aí realizadas permitiram recolher materiais muito posteriores, entre os quais se destacam alguns fragmentos de “terra sigillata clara D”, fabricadas entre 560/580 e 620 d.C.. Estes indícios de continuidade da utilização do edifício, cuja abóbada de cobertura – pelo menos em parte – só terá ruído depois de 1247, fazem todo o sentido se pensarmos que os edifícios termais romanos, pela sua qualidade de construção e resistência, foram, com muita frequência, usados para fins diversos, nomeadamente como espaços de culto e até de enterramento, muito para além do fim do Império que lhes deu vida.
 
As convulsões – as da Terra e as da sociedade – dos inícios do século V não terão sido o fim do mundo. Nem de Tongobriga. Nem sequer das suas termas. Mas apenas o fim do seu uso original.
 

Os outros edifícios públicos monumentais

Na sequência da promoção de Tongobriga a capital de civitas, o período correspondente à dinastia dos Antoninos seria marcado por fortes investimentos que se traduzem em vários edifícios monumentais, nomeadamente o forum, o teatro, o anfiteatro e o circo.
 
Relativamente ao circo, nunca intervencionado, Lino Tavares Dias situa-o fora do perímetro urbano e “no limite da centúria da cidade”. Já no que diz respeito ao forum, ao teatro e ao anfiteatro, está apontada a sua inserção na malha urbana.
 
Na sequência dos trabalhos desenvolvidos em parceria com Charles Rocha e Pedro Alarcão, o forum é assim descrito por Lino Tavares Dias: “seria um espaço afirmado e envolvido por quatro pórticos, cada um com três colunatas. O corpo central do forum dividia-se em dois espaços: o espaço da praça com 1 actus de largura e 1,5 actus de comprimento, e o espaço do templo. (…) O templo inscrevia-se num rectângulo de 11,84 metros por 23,68 metros, correspondendo à proporção de oito por dezasseis passus. (…). A frontaria do templo tinha a largura de oito passus e foi possível identificar a inserção das escadas que teriam a largura de quatro passus, 5,92 metros”.
 
Este forum estaria enquadrado por um novo recinto amuralhado que ampliaria o espaço urbano de Tongobriga, dos pouco mais de 13 hectares iniciais para cerca de 22 hectares. Retomando uma hipótese já aventada por Lino Tavares Dias em 1997, as publicações mais recentes adiantam a ideia de o espaço central do forum ser rematado, a nascente, pelo edifício da basilica, indispensável ao exercício das novas funções desempenhadas por este centro urbano.
 
Uma rua, diagonal, terá passado a cruzar o lado poente da cidade, fazendo a ligação entre as áreas de maior densidade de construção doméstica, a cotas mais elevadas, e a área onde se localizaram o forum e restantes edifícios públicos monumentais. Esta rua daria acesso ao forum através de uma abertura no seu muro perimetral Norte.
 
Do lado oposto da praça, isto é, da parte Sul, existe uma plataforma elevada, acessível através de três lanços de escadas. Essa plataforma de 8,9 metros de largura e a toda a extensão do eixo maior da praça foi, desde a sua primeira publicação, interpretada como espaço comercial, porticado, com colunas espaçadas 4,4 metros (3 passus = 15 pes) entre si.
 
A constatação de que a praça (a uma cota mais baixa) e a plataforma dita “comercial” (a uma cota superior) e as respetivas colunatas não são compatíveis, enquanto parte integrante de um mesmo projeto de arquitetura, fez com que os autores que temos vindo a seguir levantassem a possibilidade de apenas a plataforma Sul ser datável de Trajano/Adriano, remetendo a construção da praça para um momento anterior.
 
Quanto ao teatro e anfiteatro, também eles estarão enquadrados na grelha ortogonal já referida, a qual regulará também o ordenamento das habitações. Ocuparão, cada um, 9 unidades de actus quadratus (3 x 3) enquanto o forum se enquadra em 12 unidades (3 x 4). A distância a eixo entre cada uma destas edificações é também regular, e está estimada em 3 actus = 360 pes. Cada uma delas tem 2 actus de largura e o espaço livre entre elas é de 1 actus.
 
Pelo que se depreende da reconstituição proposta pelos autores já referidos, os arquitetos que planearam esta “revolução urbana” em Tongobriga inspiraram-se em vários modelos: o que se conhece da modulação urbana e de edifícios como o teatro apontam para o modelo de Bracara Augusta; já a implantação e a relação espacial entre teatro e anfiteatro têm paralelos muito semelhantes em Emerita Augusta.
 

O território e o povoamento

São várias as formas de definir o território de um lugar central, dependendo da natureza – política, económica, social ou religiosa, da sua centralidade, e da metodologia utilizada.
 
À escala regional, o território pode ser uma área perfeitamente delimitada, no caso de estarmos a falar, por exemplo, de um território de natureza política, correspondente à área administrada por uma cidade capital de civitas, por sua vez integrado no território de um determinado conventus e numa dada provincia; o qual, não raras vezes, tem correspondência genérica com um território de natureza étnica, um populus de origem pré-romana, mais tarde assimilado e convertido pela administração romana. Podemos estar a falar de um território de natureza tributária, em que todos os seus habitantes pagam impostos a uma mesma entidade fiscal; ou a um território militar, cuja defesa compete a um determinado corpo de legionários; ou ainda a um território de natureza religiosa, como acontece com as paróquias criadas já no contexto da desagregação do Império, as quais funcionam como extensões do poder episcopal e, como tal, estão por sua vez integradas em outros territórios mais vastos, as dioceses.
 
Há ainda muitas outras formas de definir um território. Entre as mais comuns, contam-se os territórios de natureza económica: aqueles espaços que podem ser percorridos diariamente por quem trabalha na terra, as áreas que são acessíveis a quem se desloca diariamente a um centro urbano, ou ainda a região dentro da qual todos os seus habitantes recorrem a um mesmo mercado para se abastecerem ou venderem os seus excedentes.
 
Povoamento romano na área de Tongobriga (JMA)Na ausência de estudos e dados mais concretos, podemos recorrer a modelos geométricos que nos sugerem uma determinada repartição equitativa do espaço entre povoações de igual categoria; ou modelos geográficos, que têm em linha de conta, por exemplo, a orografia, a hidrografia e a rede viária.
 
No caso de Tongobriga, os aprofundados estudos que são necessários para podermos avançar com propostas fiáveis acerca dos seus “vários territórios”, estão ainda por fazer. Resta-nos, pois, pegar nas evidências da geografia regional e no que se conhece sobre o seu povoamento em época romana para podermos fazer alguma luz sobre este assunto.
 
Do ponto de vista da oro-hidrografia regional de Tongobriga, são marcantes, a Sul, o rio Douro – que, inclusive, separava administrativamente a Callaecia da Lusitania – e a nascente, o majestoso maciço da serra do Marão, com os seus mais de 1400 metros de altitude. A Norte e poente, o Tâmega – ainda muito próximo – e o couto mineiro romano das serras de Valongo e Paredes – já demasiado longe – não deverão constituir limites territoriais para Tongobriga.
 
No que diz respeito ao povoamento castrejo, a nível regional, só existem mais três “citânias” de grandes dimensões: o Monte Mozinho (Penafiel), cuja área estimada se aproxima dos 20 ha, e os Castros de Aradros e Quires (Marco de Canaveses), que nunca foram alvo de estudos sistemáticos. Todos estes grandes povoados, com uma equidistância de 8 a 10 km., poderiam efetivamente fazer parte de uma rede de “lugares centrais” que repartissem entre si o território.
 
Já ao nível do povoamento romano, existiu uma densa rede de pequenos casais agrícolas e de várias villae, instaladas em cada um dos férteis vales agrícolas da região – a maior parte delas, aparentemente, testemunhos de um povoamento já tardio, e datáveis do Baixo Império.
 
Quanto ao desenvolvimento de núcleos urbanos, e com exceção de Tongobriga, não parece ter sido uma vocação desta região em época romana. Conhecem-se escassos vici, entre eles Várzea do Douro (Marco de Canaveses), Gatão (Amarante) e Meinedo (Paredes), todos atestados documental e/ou epigraficamente. Poderão também tê-lo sido Carvalho de Rei e Lomba (Amarante) Santa Marinha do Zêzere e Esmoriz (Baião) e Croca (Penafiel). Estes núcleos secundários podem, inclusive, ser tomados como pontos de referência para a delimitação de um dos diferentes territoria de Tongobriga.
 

A Necrópole

Sepultura com urna cinerária do séc. I d.C. (RW)Com a morte, os corpos regressam à terra mater. Mas, creem os romanos, as almas permanecem. Da vida que os defuntos levaram, haverá consequências para o seu destino. Aos que ficam, compete zelar pelos espíritos. Desse zelo – ou da ausência dele – dependerá a natureza e a ação dos mortos no mundo dos vivos: eles podem transformar-se em fantasmas noctívagos, verdadeiros pesadelos, ou em presenças agradáveis e benéficas. Eis as convicções que determinam a forma como se tratam os mortos e se escolhem os locais para lhes dar nova morada.
 
As primeiras notícias de descoberta de sepulturas romanas em Tongobriga remontam aos séc. XVIII e XIX. Mas só na década de 80 do séc. XX foi possível identificar e escavar um dos núcleos da necrópole, junto ao atual cemitério. Já no séc. XXI, foi identificado um outro núcleo, mais antigo, nas proximidades das termas.
 
Embora os povoados de grandes dimensões, como Tongobriga, pudessem ter mais de uma necrópole, até agora só foi aqui identificada uma, com diferentes núcleos que sugerem uma utilização preferencial de um ou outro espaço em diferentes épocas. Para os mortos foi reservada uma extensa área – devidamente separada do perímetro habitado pela muralha – que se estende por centenas de metros da encosta nascente, ao longo da principal estrada. Garantia-se, desta forma, que os mortos não cairiam no esquecimento e manter-se-iam sempre perto do olhar dos viandantes, a quem se pedia que lhes desejassem que a terra lhes fosse leve: sit tibi terra levis.
 
Espólio de uma sepultura do séc. II d.C. (DC)Crentes na vida para além da morte, os romanos depositavam oferendas nas sepulturas. Algumas dessas oferendas – que, dir-se-ia em tempos modernos, têm um caráter utilitário – parecem destinadas a garantir a satisfação das necessidades básicas do defunto: jarros, potinhos, copos e pratos, que em nada se distinguem das peças usadas no quotidiano, são as mais comuns. Outras, como os lacrimários, mais íntimas, quase nos permitem reviver o sentimento de dor de quem perdeu um ente querido. Outras ainda, são invulgares objetos de luxo, sinais de que a hierarquia social se mantém no outro mundo. Como se pudessem ter necessidade de pagar a passagem para o além, a alguns dos falecidos eram deixadas moedas. Não fosse o barqueiro exigi-las…
 
Sepultura com espólio funerário do séc. IV d.C. (APF)No mundo romano também se praticou a inumação dos corpos. Mas todas as sepulturas até agora identificadas em Tongobriga são de cremação. Quanto mais próximas da muralha, mais antigas são as sepulturas. As primeiras, datáveis de meados do séc. I d.C., a escassas dezenas de metros das primeiras casas, são simples covachos abertos no solo, nos quais se deposita a urna que continha os restos da cremação e um ou outro pequeno objeto, na maioria dos casos adereços da roupa que o defunto usava. Muito perto destas, foram também identificadas sepulturas de finais do séc. I e inícios do séc. II, em caixas quadrangulares definidas por tegulae, contendo apenas uma ou duas peças de terra sigillata. As sepulturas situadas mais longe das muralhas, e como tal, mais longe do mundo dos vivos, são datáveis do século IV d.C. e contêm conjuntos mais ou menos numerosos de peças de cerâmica comum e por vezes  também moedas.Sepultura com espólio funerário do séc. IV d.C. (APF)
 

Um edifício singular

Nave da igreja de Santa Maria do Freixo: mosaicos romanos (AML)As escavações arqueológicas realizadas no subsolo da igreja de Santa Maria do Freixo revelaram, inicialmente, aquilo que seria de esperar: os restos mortais dos que, ao longo de vários séculos, habitaram na freguesia e foram sepultados no interior do templo.
 
A convicção de que a salvação divina implicava que o defunto tivesse a igreja – ou o seu adro – como última morada neste reino, transformou os templos paroquiais em cemitérios. No Freixo, fruto do peso da tradição e da tardia construção do cemitério paroquial, este costume perdurou até mais tarde do que na maioria das paróquias: o último enterramento na igreja de Santa Maria realizou-se há pouco mais de um século, em 1905.
 
Mas uma grande surpresa se escondia sob a igreja atual e os seus mortos: o intenso colorido de um mosaico geométrico com motivos de caráter vegetalista que originalmente cobria um grande edifício, do qual se escavaram parcialmente três compartimentos cuja área total excedia os 215 m2. Restavam, em toda essa área, menos de 10 m2 de mosaico, os quais, apesar de tudo, nos permitiram perceber a sua organização e enquadramento.
 
Quer a configuração do mosaico (uma composição ortogonal de octógonos irregulares, secantes e adjacentes, determinando quadrados e hexágonos oblongos), quer os motivos que o preenchem (florzinhas em cruz, nós de Salomão, tabuleiros de xadrez, quadrilóbulos, entrelaçados, peltas e motivos ondulados) quer as suas cores e materiais (cinco cores de base – vermelho, amarelo, verde, branco e cinzento – em tesselas de calcário e barro) são comuns nos mosaicos romanos do Baixo Império.
 
O que distingue o mosaico de Tongobriga é o seu carácter único a nível local, o seu enquadramento urbano, as grandes dimensões do edifício que o recebeu e, em especial, a sua cronologia muito tardia.
 
Localizado no centro do perímetro amuralhado e no seu mais alto e proeminente espaço habitável e urbanizável, o edifício pavimentado a mosaico excede o dobro do espaço ocupado por qualquer outra das domus romanas de Tongobriga: duas características que apontam para um edifício incomum e com direito a lugar de destaque no contexto urbano do povoado
 
A sua construção implicou a demolição de uma domus, uma alteração substancial da malha urbana e da sua possível modulação e a afetação do espaço central do perímetro construído, onde se cruzariam os seus principais eixos viários. Sinal de que já terá sido construído no contexto de uma profunda alteração da fisionomia de Tongobriga.
 
Pormenor do mosaico (AML)Datáveis do século V – contemporâneos, portanto, do final do Império Romano, da emergência do reino suevo e da promoção de Tongobriga a uma das suas “paróquias”, no século VI – os mais antigos enterramentos realizados no interior do espaço amuralhado – tidos como sinal de cristianização – situam-se nas proximidades deste edifício pavimentado a mosaico, cujas paredes, pelo menos em parte, continuaram em uso até à construção do templo atual.
 
A partir da época a que se convencionou chamar da “Reconquista Cristã”, coeva da refundação do sítio, já não como Tongobriga mas como Santa Maria do Freixo, iniciou-se a utilização sistemática do espaço interior deste grande edifício (correspondente a toda a igreja e grande parte do adro atual) como cemitério, o que levou à destruição de uma parte substancial do mosaico que o cobria.
 

A difusão do Cristianismo

Há mais de mil e quinhentos anos, alguém, em Tongobriga, pegou numa pequena taça, revestida por um luxuoso verniz vermelho, e desenhou na sua superfície lisa um conjunto de traços cujo significado deveria ser ainda totalmente desconhecido para a maioria da população: um X e um P, sobrepostos, ladeados por dois símbolos que já mal se veem, um alfa e um ómega.
 
X e P, Chi e Ro: as iniciais de Cristo em grego. Alfa e Ómega: o princípio e o fim de tudo. O Chrismon, símbolo cristão que o imperador Constantino havia adotado no seu estandarte, já em época tão recuada havia chegado aos confins ocidentais do Império, e pelas mãos de um dos habitantes de Tongobriga, era desenhado nesta singela peça, hoje reduzida a um pequeno fragmento, a qual constitui, para esta região, a mais antiga prova da adoção do culto cristão. O que não significa, de todo, que, nessa época, a difusão do Cristianismo fosse generalizada e que isso se refletisse em todos os aspetos da vida dos tongobricenses.
 
Chrismon grafitado sobre sigillata (APF)A existência de uma comunidade cristã organizada atesta-se em finais do século VI, quando Tongobriga, situada na diocese de Portucale, surge referida no chamado “Paroquial Suevo”, integrada num restrito conjunto de núcleos populacionais secundários (vici) escolhidos como sede de uma das ecclesiae que in vicino sunt, as quais são interpretadas como extensões do poder episcopal numa época em que o Cristianismo estava ainda muito longe de estar implantado nas comunidades rurais, nas quais os costumes ditos “pagãos” (leia-se “não cristãos”) ainda iriam perdurar por muito tempo.
 
O desenho de um símbolo tipicamente cristão numa simples peça de cerâmica revela uma manifestação pessoal da vivência cristã, transportando-nos para a esfera da vida privada. Mas a existência de uma comunidade cristã implicava bem mais do que isso. Não dispensava a existência de um templo, para a celebração de atos litúrgicos. Templo esse que haveria de polarizar todas as manifestações da fé cristã, incluindo as relacionadas com a crença na vida para além da morte. O que se traduz no abandono das necrópoles extramuros e na criação dos cemitérios para que os crentes pudessem garantir a salvação ao serem sepultados apud ecclesia.
 
Em Tongobriga, está comprovada a utilização da necrópole romana de cremação pelo menos até finais do século IV. Por outro lado, nas proximidades da Igreja, foram identificadas três sepulturas de inumação, com fundo forrado a tegula, cuja tipologia encaixa bem nos séculos seguintes. O que significa que, nos tempos que se seguiram ao fim do Império, o cemitério, que deveria situar-se nas proximidades do templo, passa a situar-se em torno do local onde hoje se situa a igreja de Santa Maria do Freixo.
 
Sepultura paleocristã. Adro da igreja (APF)Sob a igreja atual, as escavações arqueológicas revelaram um grande edifício pavimentado a mosaico, do século V, que testemunha que, mesmo após a desagregação do Império Romano, continuou a subsistir em Tongobriga uma elite hispano-romana, herdeira de gostos e tradições artísticas e culturais que nada têm a ver com as novas classes dirigentes de origem germânica.
 
Terá a primeira ecclesia de Tongobriga resultado da adaptação de um espaço originalmente concebido para residência dessas elites? Terá ela resultado da evolução de um primitivo oratório privado? Ter-se-á ali adorado Jupiter, e, antes dele, os deuses protetores de Tongobriga? Ou teremos ainda de procurar mais – e noutros locais – para encontrarmos a primitiva igreja?
 
Não podemos esquecer que o imponente edifício das termas romanas forneceu materiais dos séculos VI e VII. E que, pela sua monumentalidade e qualidade de construção, é vulgar, no mundo tardo-romano, a adaptação dos edifícios termais a templos cristãos. E que até as coberturas abobadadas das termas romanas de Tongobriga resistiram, pelo menos em parte, até ao século XIII. E que, nos meados do século XVI, ainda esse edifício se chamava… Ermida de Nossa-Senhora-A-Velha.
 

Nos finais do Império

Num momento não muito distante no tempo, na casa situada ao lado do local em que foi encontrada a peça decorada com um Chrismon, alguém ocultava, num qualquer esconderijo de uma das paredes, um outro tesouro: um pequeno pote contendo mais de quatrocentas moedas (uma de prata e as restantes de bronze), certamente o fruto das poupanças de várias gerações de uma mesma família que, por algum motivo, não teve possibilidade de regressar a casa...
 
Escondido nos inícios do século V, só foi recuperado pelos arqueólogos do século XXI. É inevitável associar a ocultação deste tesouro às perturbações sociais e económicas ocorridas por volta do ano 409 e associadas às chamadas “invasões bárbaras” de povos germânicos.
 
Tesouro de moedas da “Casa das Escadas” (DC)As alterações de finais do Império não se ficam, porém, pela difusão do Cristianismo ou por essas transformações sociais. Elas aconteceram a todos os níveis e, como tal, repercutiram-se em todos os aspetos da vida dos habitantes de Tongobriga. E se, por um lado, se notam sinais de perda de vitalidade da vida urbana – uma tendência à qual só parecem ter escapado as cidades que ascenderam à categoria de sede de diocese – também temos, por outro lado, sinais de sentido oposto.
 
Mais do que o suposto abandono dos seus espaços e edifícios públicos, Tongobriga parece ter-se mostrado incapaz de os renovar ou de neles fazer grandes investimentos.
 
É muito provável que o forum de Tongobriga tenha continuado a ser utilizado. Porém, nele não se reconhecem quaisquer obras posteriores ao século IV. O mesmo se passou com as monumentais termas romanas. Após o colapso, mesmo que parcial, da sua estrutura, inviabilizando a utilização termal do edifício, não mais parece ter havido capacidade para o renovar, pelo menos de forma a deixar vestígios. Mas também este edifício apresenta evidências materiais claras de continuar a ser usado.
 
Ao mesmo tempo que se multiplicam os sinais de intensificação do povoamento rural, quer com pequenos núcleos (casais e aldeias), quer com grandes explorações agrícolas (villae) de uma elite que se sentia já mais atraída pela casa no campo do que pela domus na urbe, o próprio aglomerado urbano que os romanos haviam desenvolvido em Tongobriga revela ter entrado em processo de clara regressão. A retração do espaço habitado é sugerida pela reduzida área de dispersão dos materiais mais tardios, dos séculos V e VI, que se cingem a um espaço restrito, no núcleo central do perímetro amuralhado, em torno da atual igreja de Santa Maria.
 
Reconstrução tardia da “Casa do Impluvium” (JMA)O facto de as habitações comprovadamente usadas na Antiguidade Tardia serem, por norma, uma mera reformulação de fraca qualidade das construções pré-existentes – um processo muito semelhante ao observado noutras cidades romanas – condiz também com esta perspetiva que nos parece revelar um mundo em decadência. Há, porém, como se disse, sinais de vitalidade.
 
Entre eles, avultam os indícios, cada vez mais fortes, de o forum e as termas terem continuado a ser usados, o primeiro como local de uma feira que só mil anos depois abandonaria o local, e o segundo com outras funções que não termais, sugeridas pelos materiais tardios e pela sua designação quinhentista: “Ermida de Nossa Senhora A Velha”. Também datável dos finais do império ou já da “Antiguidade Tardia”, um grande edifício, com pavimento em mosaico polícromo, constitui o único testemunho de que, mesmo após a desagregação do sistema político e da administração imperial, continuou a subsistir em Tongobriga uma elite dominante.
 
É, por outro lado, uma época em que o vale do Douro navegável revela um forte dinamismo económico que se manifesta, quer ao nível da presença de materiais importados, quer ao nível de várias manifestações artísticas que indiciam uma grande abertura – social, económica e cultural – ao Atlântico e também ao Norte de África e ao Mediterrâneo Oriental, abertura essa que foi provavelmente potenciada por um florescente comércio fluvial, particularmente ativo a partir do século V.
 
 
  
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Lima, António Manuel; Menchón i Bes, Joán – Tongobriga. O Espírito do Lugar. Guia Arqueológico Visual, Porto, DRCN / CMMC, 2018.
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